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A PAZ PODRE

Em: Blog




Fico sempre embaraçada perante a impossibilidade da maioria das pessoas serem capazes de sustentar um diálogo franco e construtivo entre elas, diálogo para o qual concorrem diferentes pontos de vista, por vezes tantos como os interlocutores em jogo.

Parece que muito pouca gente gosta de ver as suas crenças/pontos de vista minimamente questionadas e prefere uma falsa harmonia à efervescente ebulição  do avanço conjunto, assente na contribuição autêntica  de cada um. Acho que isto se fica a dever à fraca estrutura em que os seres assentam as suas vidas, sem um trabalho de fundo. A “verdade” é algo da autoria de outrem. colado à pressa na camada superficial do ser, entretanto rigidificado numa atitude defensiva. O recurso a atitudes arrogantes, quando não ao insulto, é a consequência  habitual.

Pergunto-me. qual é o interesse de viver num mundo de “Améns” (por força, falsos, na sua maioria), será que não são por demais evidentes  os efeitos nefastos da paz podre?

As patéticas audiências de gente a acenar que sim, que sim, que sim… que sim, o quê Por quê? Assente em quê? Para quê?

As patéticas audiências a não dizerem nada, porque nada têm para dizer, ou se têm, não dizem, porque pode não ser politicamente correcto e arranjam-se sarilhos.

As patéticas audiências de seres armados até aos dentes para defenderem o que trazem colado à pele da sua (in)segurança pessoal (carreira, estatuto, protagonismo de algum tipo).

Algo parafraseando o poeta, dai-me rosas, dai-me rosas, e o fluir da água, e o ar livre em movimento.

Dai-me a vossa voz, a que corre nos átomos do  corpo inquieto, perplexo, atento aos indecifráveis mistérios, a que jorra da mente empenhada e  do coração tenro…


MARIANA INVERNO, in “Notas Diárias à Sombra dos Tempos”

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