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Encontro com o tempo perdido

Detalhes Técnicos

Ano: 2009
Técnica: Pastel, óleo e gel de lava sobre tela
Dimensões: 70 x 130 cm

EUR 5.000,00+ IVA

Estado: Disponível

Enaltecimento ao que é admirável

Detalhes Técnicos

Ano: 2009
Técnica: Óleo, ouro e pastel sobre tela
Dimensões: 80 x 120 cm

EUR 4.000,00+ IVA

Estado: Disponível

Como se cada tela historiasse a vida

Detalhes Técnicos

Ano: 2009

Técnica: Óleo sobre tela
Dimensões: 100 x 70 cm

EUR 3.000,00 + IVA

Estado: Disponível


S. João – Baptismo segundo D. Dinis

Detalhes Técnicos

Ano: 2010
Técnica: Ouro, óleo, pastel e pedra sobre tela
Dimensões: 120 x 80 cm

EUR 4.000,00+ IVA

Estado: Disponível

RESPIRAÇÃO PERSISTENTE


RESPIRAÇÃO PERSISTENTE
hoje despertei insana e contemplei com olhos novos os objectos ouro e prata, as flores quase asfixiadas no apartamento londrino, elas que aspiram aos céus e ao azul e ao ar fresco dos céus que reflectem…
o pouco sentido da repetição diária e a minha alma a empurrar docemente este veículo treinado para a vida de superfície, a minha alma a segredar, inaudíveis as vozes antigas, as futuras, pré-murmúrios de grandes revelações – acho eu que não desisto…
entro na onda do dia e mantenho-me paralela a mim mesma sem saber, pobre criança, como fazer da maneira que a alma queria que eu fizesse, tudo questionado e efémero salvo aquilo que não logro tocar mas que me dá sentido, valor, aquilo que canta que sonha que emerge uma vez e outra, sempre, como o dia, como a noite, como a lua e o sol e esta respiração persistente que me confirma…
se houvesse fios mais visíveis, pistas esclarecedores a alumiar o caminho – dizem ser antigo, tanto como a memória perdida – poderia para mim, quem sabe, acender-se a luz interna das coisas e saberia melhor a fonte do choro e do riso, sombras transmutadas…
poderia, quem sabe, ler nos interstícios, nas brechas, nos vazios, alcançaria a vastidão imensa de quem sou e nela beberia a seiva do infinito pela qual me consumo…


hoje despertei insana e contemplei com olhos novos os objectos ouro e prata, as flores quase asfixiadas no apartamento londrino, elas que aspiram aos céus e ao azul e ao ar fresco dos céus que reflectem…

o pouco sentido da repetição diária e a minha alma a empurrar docemente este veículo treinado para a vida de superfície, a minha alma a segredar, inaudíveis as vozes antigas, as futuras, pré-murmúrios de grandes revelações – acho eu que não desisto…

entro na onda do dia e mantenho-me paralela a mim mesma sem saber, pobre criança, como fazer da maneira que a alma queria que eu fizesse, tudo questionado e efémero salvo aquilo que não logro tocar mas que me dá sentido, valor, aquilo que canta que sonha que emerge uma vez e outra, sempre, como o dia, como a noite, como a lua e o sol e esta respiração persistente que me confirma…

se houvesse fios mais visíveis, pistas esclarecedores a alumiar o caminho – dizem ser antigo, tanto como a memória perdida – poderia para mim, quem sabe, acender-se a luz interna das coisas e saberia melhor a fonte do choro e do riso, sombras transmutadas…

poderia, quem sabe, ler nos interstícios, nas brechas, nos vazios, alcançaria a vastidão imensa de quem sou e nela beberia a seiva do infinito pela qual me consumo…



Mariana Inverno in “Notas Diárias à Sombra dos Tempos”

PARA ALÉM DOS SENTIDOS

se te falasse das pequenas coisas que me assombram ficarias absorta na contemplação de um mundo que quase nunca vês e talvez daí colhesses a tal seiva húmida de que todos precisamos para ver…

vejo fealdade, rostos-esgar a passar em high speed  no ar poluído da metrópole, vejo os olhos vibrantemente azuis de um bebé que num canto da cafetaria me olhava como se conhecesse de há milénios – cristais líquidos  a desencantar memórias armazenadas algures no espaço akáshico – vejo as flores de fim de verão a desencadear corolas e corolas mântricas sobre o meu ser esfomeado…

canta na casa por muito tempo a água de um duche persistente na tentativa de limpeza daquele ser atormentado, o agressor chora passado o clímax da luta, para que foi tudo aquilo, não levou a nada, não valeu a pena, não vale as mágoas e o vazio…

a mulher-menina que já não é menina mas ainda não mulher apesar do avançado cronológico, segue auto-hipnotizada, a fingir que é quem não é e perde o útero, às vezes as mamas, finalmente a vida toda sem ter a coragem de olhar para dentro…

gritam, matam-se e esfolem, brandem armas em nome do único deus, dos direitos do povo, sujos, delinquentes, habitados pelo ódio, incapazes, incapazes – fios manipulatórios respiram de alívio…lá se foi mais um ditador que já não serve…

e eu e a minha pele suave, eu e os meus olhos de luz que os sinto assim sempre, eu quem sou por onde vou se é que vou por algum lado, aonde e quando colherei o meu prana, já que o tempo corre agora como a própria luz e se evade de mim como amante perseguido…

concentra-te em mim se puderes, busco-te para além do que sabes de ti mesma, alcanço-te por vezes no elusivo timbre da tua nota cósmica, aí me fundo no eterno abraço…


Mariana Inverno in “Notas Diárias à Sombra dos Tempos”

Cézanne, Van Gogh, Picasso, Dalí entre muitos outros a partir de Outubro na Fundação Gulbenkian

É inaugurada em Outubro a grande exposição do Museu Calouste Gulbenkian dedicada à pintura e natureza-morta europeia, com obras de Cézanne, Van Gogh, Picasso, Dalí, Gauguin e tantos outros.

Neil Cox, o comissário da exposição, desvenda o que vamos poder ver a partir do dia 21 de Outubro.

O Museu Calouste Gulbenkian vai inaugurar a segunda parte de uma grande exposição em que se pretende estudar os diferentes aspectos da pintura de natureza-morta na Europa. Na qualidade de comissário desta segunda parte, coube-me o desafio de ponderar como poderíamos pensar em algo tão tradicional como a natureza-morta, isto é, a representação de um grupo de objectos – sejam eles flores, instrumentos, conchas ou uma caveira, geralmente colocados sobre uma mesa – no contexto da modernidade.

Com o título geral em inglês In the Presence of Things (Na Presença das Coisas), esta mostra, em duas partes, recebeu, em português, o nome de A Perspectiva das Coisas, cujo significado, ainda que ligeiramente diferente, não deixa de ter a sua pertinência. A segunda parte da exposição tem como ideia base explorar de que modo, num contexto de modernidade, o significado da natureza-morta se alterou à medida que o significado dos objectos, e a experiência subjectiva dos mesmos, também se alterava. E, dado que é praticamente impossível construir desta vez uma narrativa histórica uniforme, poderão os visitantes contar com uma viagem através de uma diversidade de temas, plena de nomes surpreendentes, lado a lado com as figuras mais destacadas da história da arte moderna.

É hoje comum a ideia de que a arte moderna é interessante porque nos apresenta as reacções do artista perante o mundo, recorrendo à pintura para exprimir ideias ou sentimentos, em lugar de nos apresentar uma representação realista do mesmo. É claro que a própria ideia de que as reacções subjectivas são interessantes é já, em si, moderna, podendo nós a este propósito pensar na obra de Freud ou no surgimento do romance psicológico como prova disso mesmo. A exposição defende que esta aproximação ao subjectivo, e consequente afastamento dos imperativos do real, contou com a ajuda da invenção da fotografia por volta de 1840. A fotografia produzia imagens através da luz reflectida nos objectos e nas pessoas, e fê-lo segundo uma óptica completamente diferente. É fácil de constatar que esta tecnologia libertou a pintura da incumbência da representação realista, ao fazê-lo, abriu o caminho para que artistas como Vincent van Gogh, Henri Matisse ou Odilon Redon (todos eles representados na exposição) pintassem segundo uma nova noção de liberdade em termos de cor e de forma. Usando as palavras do poeta Stéphane Mallarmé em 1864, a tarefa consistia agora em “pintar, não o objecto, mas o efeito que ele produz”. Nesta frase, podemos já verificar que o estatuto do objecto se tornou um problema: os objectos são “efeitos” numa pintura que agora nos apresenta os sentimentos do artista. Se considerarmos uma outra perspectiva, podemos concluir que a fotografia não aboliu o realismo, tendo, outrossim, contribuído para uma nova compreensão da realidade. Segundo este ponto de vista, as fotografias foram ao encontro do positivismo oitocentista e de certas políticas progressistas. O “realismo” de Gustave Courbet é o melhor exemplo disso mesmo. Mais tarde, a ideia de que a fotografia apresentava uma nova forma de realidade seria adoptada e transformada pelo Surrealismo. Salvador Dalí, por exemplo, combinava um fascínio pela realidade revelada pela fotografia com uma técnica pictórica que pretendia sugerir a qualidade expressiva, quase fotográfica, dos sonhos. Mas, à semelhança de outros artistas surrealistas representados na exposição, como René Magritte e Max Ernst, Dalí não defendia o tipo de realismo presente em Courbet. O termo “surrealismo” pretendeu anunciar a resolução do hiato existente entre a experiência inconsciente e consciente, entre o sonho e a vigília.

Os artistas modernos trabalhavam numa situação de mercado; como tal, muitas das obras apresentadas foram criadas por pintores que desenvolveram uma maneira ou uma temática característica, que lhes granjearia o sucesso comercial. Chaïm Soutine, por exemplo, era inicialmente um artista pobre com um fascínio pelo espectáculo da carne, patente em O Boi Esquartejado de Rembrandt (Museu do Louvre, Paris). Soutine era um lituano que partiu para Paris para se tornar um artista moderno. Muitos dos maiores artistas portugueses modernistas, incluindo Amadeo de Souza-Cardoso e Eduardo Viana, fariam o mesmo, assim como o espanhol Pablo Picasso. A presente exposição, constituída por mais de noventa obras, tem como objectivo contar a história destes artistas, colocando simultaneamente a questão da modernidade.

Neil Cox
(in Newsletter NÚMERO 126, de Setembro 2011)

SOBRE O COMISSÁRIO
Neil Cox é especialista em arte francesa do século XX, com fortes interesses teóricos e filosóficos, tendo escolhido Picasso como tema da sua tese de doutoramento. Organizou, em 1995, uma importante exposição sobre a representação de animais na obra de Picasso, sendo co-autor do livro que acompanhou a mesma, A Picasso Bestiary. É igualmente co-autor de um livro sobre Marcel Duchamp, da World of Art Series da editora Thames and Hudson, autor de Cubism, integrado na série Art and Ideas da Phaidon, bem como de The Picasso Book publicado pela Tate. É membro da International Advisory Board of the Research Forum do Courtauld Institute. É professor de História e Teoria da Arte na Universidade de Essex.


Fonte: Fundação Calouste Gulbenkian

José e Pilar


O filme, co-produzido pelos realizadores brasileiro Fernando Meirelles e espanhol Pedro Almodóvar, membros da Academia Americana de Artes e Ciências Cinematográficas, foi o escolhido para representar Portugal nos prémios mais cobiçados do mundo do cinema. No entanto, “José e Pilar”, um retrato intimista da relação entre o escritor e Nobel da Literatura e a sua companheira Pilar del Río, é ainda um candidato à nomeação aos Óscares.

O documentário, que estreou em Portugal em 2010 e foi visto por 22 mil espectadores, foi considerado o quarto filme português mais visto do ano, apenas abaixo de “A Bela e o Paparazzo”, “Contraluz” e “Filme do Desassossego”, e foi ainda o segundo documentário mais visto de sempre em Portugal, atrás de “Fados”.

Aos Estados Unidos, de acordo com a produtora Jumpcut, o filme vai chegar às salas em Abril do próximo ano, depois de já ter estreado na Espanha, Brasil e Itália.

Esta notícia surge depois de ter sido criada uma petição pública na Internet que pedia que “José e Pilar” fosse o candidato de Portugal a uma nomeação para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, somando, até agora, 2439 assinaturas. 

Segundo o comunicado do ICA, “a escolha deste filme foi feita por uma comissão, composta por representantes de associações do sector, previamente submetida à aprovação da Academia Americana de Artes e Ciências Cinematográficas”.

“José e Pilar” foi nomeado na categoria de Melhor Filme para os prémios SPA e na categoria de Melhor Filme Documental, pela Academia Brasileira de Cinema. No Brasil, o filme foi ainda distinguido com o Prémio do Público da mostra de São Paulo e com o Prémio do Público da Mostra Visões Sul.


Fonte: Público

Viajar no Tempo?


A confirmação da existência de uma partícula mais rápida que a luz vai abrir portas à hipótese de se poder “viajar no tempo”, defendeu Gaspar Barreira, o investigador português do Conselho da Organização Europeia para a Investigação Nuclear (CERN).
A existência de algo mais rápido que a luz não deveria acontecer de acordo com a teoria de Einstein que tornou famosa a equação “E=mc2”. No entanto, o CERN anunciou na quinta-feira uma experiência que defende que os neutrinos são 60 nanossegundos mais rápidos do que a luz.
“Se esta experiência se confirmar haverá uma enorme revolução na física, que trará graves consequências, porque há uma quantidade de coisas que achávamos que estavam descobertas e afinal não estão”.
Recuar no tempo
Gaspar Barreira
Gaspar Barreira lembra que caso haja a confirmação da descoberta, esta vai “mexer com o princípio da causalidade” e até permitir a hipótese de se poder “andar para trás no tempo e condicionar no futuro uma acção do passado”.
“O mundo é muito mais complexo do que as nossas teorias científicas. Não fazemos a mais pequena ideia do que se passa com 95 por cento do universo”, lembrou o também presidente do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP).
Gaspar Barreira estava na reunião mensal do CERN, em Genebra, quando soube os resultados da investigação, que só viriam a ser publicamente divulgados horas mais tarde.  “Há resultados que eu esperava, mas nunca este. Há poucas gerações que podem viver estas experiências”, disse, emocionado, o cientista, que acredita que os próximos anos sejam de grandes descobertas, “tal como aconteceu na viragem do século passado”.
O físico explicou a experiência agora revelada: “Foi disparado  um feixe de neutrinos do acelerador de partículas situado perto de Genebra para um laboratório subterrâneo em Itália, a 730 quilómetros de distância”. Resultado: o neutrino viajou 60 nanossegundos mais rápido que a velocidade da luz.
Para já apenas um resultado experimental
Os investigadores envolvidos neste projeto já pediram à comunidade científica internacional que confirmem ou excluam esta a experiência. “Isto não é uma descoberta, é um resultado experimental que é preciso confirmar”, sublinhou Gaspar Barreira.
Neutrinos mais rápidos do que a luz
O professor José Pedro Mimoso, do Departamento de Física da Universidade de Lisboa, explicou o “pedido” dos investigadores: um nanossegundo é mil milhões de vezes mais pequeno que um segundo e por isso tem de se colocar a hipótese de haver um “erro sistémico” e para isso “basta que haja um detector que não está bem calibrado”.
Os dois portugueses sublinham que estas descobertas não põem em causa nem destroem a teoria de Einsten. Caso se confirme, será uma informação adicional à teoria. “Em ciência não se deita por terra descobertas anteriores”, lembrou Gaspar Barreiros.
A confirmação da existência de uma partícula mais rápida que a luz vai abrir portas à hipótese de se poder “viajar no tempo”, defendeu Gaspar Barreira, o investigador português do Conselho da Organização Europeia para a Investigação Nuclear (CERN).
A existência de algo mais rápido que a luz não deveria acontecer de acordo com a teoria de Einstein que tornou famosa a equação “E=mc2”. No entanto, o CERN anunciou na quinta-feira uma experiência que defende que os neutrinos são 60 nanossegundos mais rápidos do que a luz.
“Se esta experiência se confirmar haverá uma enorme revolução na física, que trará graves consequências, porque há uma quantidade de coisas que achávamos que estavam descobertas e afinal não estão”.
Gaspar Barreira lembra que caso haja a confirmação da descoberta, esta vai “mexer com o princípio da causalidade” e até permitir a hipótese de se poder “andar para trás no tempo e condicionar no futuro uma acção do passado”.
“O mundo é muito mais complexo do que as nossas teorias científicas. Não fazemos a mais pequena ideia do que se passa com 95 por cento do universo”, lembrou o também presidente do Laboratório de Instrumentação e Física Experimental de Partículas (LIP).
Gaspar Barreira estava na reunião mensal do CERN, em Genebra, quando soube os resultados da investigação, que só viriam a ser publicamente divulgados horas mais tarde.  “Há resultados que eu esperava, mas nunca este. Há poucas gerações que podem viver estas experiências”, disse, emocionado, o cientista, que acredita que os próximos anos sejam de grandes descobertas, “tal como aconteceu na viragem do século passado”.
O físico explicou a experiência agora revelada: “Foi disparado  um feixe de neutrinos do acelerador de partículas situado perto de Genebra para um laboratório subterrâneo em Itália, a 730 quilómetros de distância”. Resultado: o neutrino viajou 60 nanossegundos mais rápido que a velocidade da luz.
Para já apenas um resultado experimental
Os investigadores envolvidos neste projeto já pediram à comunidade científica internacional que confirmem ou excluam esta a experiência. “Isto não é uma descoberta, é um resultado experimental que é preciso confirmar”, sublinhou Gaspar Barreira.
Neutrinos mais rápidos do que a luz
O professor José Pedro Mimoso, do Departamento de Física da Universidade de Lisboa, explicou o “pedido” dos investigadores: um nanossegundo é mil milhões de vezes mais pequeno que um segundo e por isso tem de se colocar a hipótese de haver um “erro sistémico” e para isso “basta que haja um detector que não está bem calibrado”.
Os dois portugueses sublinham que estas descobertas não põem em causa nem destroem a teoria de Einsten. Caso se confirme, será uma informação adicional à teoria. “Em ciência não se deita por terra descobertas anteriores”, lembrou Gaspar Barreiros.
Fonte: CH


NARCISISMO

Os traços subjacentes às  personalidades narcisistas encontram nos tempos que correm terreno fértil para desenvolvimento. Tudo na cultura popular e dos media sugere um atraente potencial de sucesso para o narcisista, ou seja, aquele que tem um sentido grandioso de si mesmo e que se sente, por conseguinte, com direito a um melhor tratamento do que os outros por ser especial e único.

O narcisista começa por ser atractivo e sedutor para os outros. Ele está imbuído de auto-paixão e é uma lenda para si mesmo. No entanto, a prazo, essas características acabam por se reflectir negativamente nos relacionamentos pois ninguém pode alimentar nada de criativo a olhar  mesmerizado para a própria imagem como se o mundo começasse e acabasse nela.

Há uma errónea tendência para confundir narcisismo com uma boa auto-estima. Enquanto esta representa o pilar seguro de uma personalidade estruturada e saudável, os traços narcisistas – os quais existem em diferentes graus nas pessoas podendo atingir níveis de desordem grave – porque exageradamente focados num só ser, acabam por atingir gravemente tudo e todos à sua volta, em especial o próprio.

Um narcisista é, de forma geral, arrogante, detem um ilimitado sentido de superioridade, sente que tudo lhe é devido e que não se submete ao que está abaixo do seu estatuto. Essencialmente egóico, centra as conversas à volta de si mesmo, vê-se e descreve-se como protagonista fabuloso das histórias fantasiadas que lhe acontecem e alimenta relações tendo em vista as suas próprias necessidades narcisistas. Não está particularmente interessado no outro (a não ser para os actos dos quais possa sair auto-glorificado), a bitola para todas as coisas passa pela resposta à pergunta que sempre se coloca: “Como é que isto/esta pessoa me faz sentir/me serve?”

Alimentar o ego desproporcionado, sentir-se bem, parecer ainda melhor e ouvir apenas aquilo que possa agradar aos traços doentios de uma personalidade  espelhada no lago da popularidade, do ser-se especial e do sucesso constituem, em resumo, o leitmotiv  deste tipo psicológico.

A exacerbação do materialismo (com todas as desordens que lhe são inerentes) tem dado origem, e nomeadamente neste milénio, a um acentuado crescimento destes traços entre os mais jovens. Na base deste fenómeno vive a ausência de valores espirituais, única força capaz de conter e transmutar a agressividade e a violência que por todo o mundo proliferam, bem como desmascarar a falácia da auto-promoção e da crença em se ser único e melhor do que o outro. A muito alimentada fantasia de que a pessoa é melhor do que realmente é – e certamente melhor do que os outros à sua volta – ignorando a realidade dos factos, está na origem de uma desordem individual e colectiva que começa a atingir níveis inquietantes.  O facilitismo na educação – pais indulgentes que com ilimitada complacência buscam construir a auto-estima dos filhos com elogios exagerados e um sistema escolar que baixa o nível de exigência e inflaciona as notas para corresponder aos requisitos das estatísticas -, o irrealismo do crédito fácil de um sistema financeiro ganancioso e virtual, bem como a constante pressão a todos os níveis para nos tornarmos “mais belos, mais ricos, mais bem sucedidos” do que o outro, tem levado as gerações mais novas a um beco sem saída bem representado na superficialidade dos “reality shows” onde perece toda a dimensão espiritual do ser.

Em resumo, o tão cantado “amor a si próprio”, quando de inspiração narcisista, ameaça tornar-nos num mundo de egocêntricos, obsessivamente concentrados na nossa aparência, bem estar pessoal, poder material e apenas e só naquilo que possa servir os nossos interesses pessoais. O narcisista tem sempre grandes expectativas em relação à sua vida mas é irrealista nas correspondentes projecções de fama e estatuto. A mulher sai especialmente afectada deste fenómeno, pois as características próprias da sua sensibilidade não se coadunam com a pressão e as tensões a que o fenómeno narcisista dá lugar. Num artigo publicado no “Guardian”(2009), Madeleine Bunting refere que a identidade das mulheres foi sempre emoldurada pelos seus relacionamentos- como mães, filhas, esposas, amigas e irmãs e que a “relacionabilidade” é ainda central para o modo como as mulheres vivem as suas vidas. Contudo ela não se coaduna com esta cultura individualista, intensamente competitiva e narcisista.  Isto dá-nos a pista para a cura de um mal que hoje ameaça atingir proporções epidémicas. Como em muitos outros campos, é ainda da mulher, geradora de vida e principal formadora do mundo de amanhã, que a consciência destes factos tem de emergir. E é principalmente dela que se espera a denúncia dos mesmos e as linhas orientadoras conducentes a um mundo mais são, onde se faça de novo sentir a música do espírito.

Mariana Inverno in “Notas Diárias à Sombra dos Tempos”