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Sou a tua coroa e o teu diadema
Publicado: 2011.11.05
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Sou a tua coroa e o teu diadema
a rosa que se abre no meu peito
quando o ar que pela tua boca respiro
entra na minha e te beijo…
Amar-te mais não posso
nem mais nada deste mundo anseio
Porque és tu
ó Deusa Mãe
quem desde sempre
vive e respira dentro do meu peito
Amém
ROSA LEONOR PEDRO, in “Antes do Verbo era o Útero”, edição Art for All, 2003
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ALMA ANTIGA
Publicado: 2011.11.02
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Alma antiga, pedes-me que te escute recostada assim no momento da árvore alta que da minha cama vejo há décadas perder as folhas, nesta altura do ano, para logo as renovar quando a luz voltar a subir…
Passa o tempo e passo eu ou o que em mim se vê e dizes-me que não passe por mim sem que por mim eu passe, enquanto as folhas vão e vêm e a luz oculta busca em vão brechas para a liberdade.
Basta às vezes o sopro inesperado da palavra encorajadora. Há dias um amigo desejou-me que a par das belas rosas do meu jardim eu continuasse a produzir rosas metafísicas e aquilo foi de repente a luz inesperada a incendiar a esperança numa aurora húmida, abençoada, um recomeço harmonioso, postigo entreaberto para a vastidão do que transporto, sem nada poder. Sem acesso continuado, livre, em delírio, num parto íntimo e alargado ao tempo que me resta.
Viver na simplicidade, soltar-me do obrigatório, ficar aqui eternamente na tecelagem da palavra de ouro, sonhar-me por inteiro, livre de este ser de superfície tão sacrificado, mandala lacrimejante nos dias baços do faz de conta.
Eu sou talvez apenas o que perdura dos instantes fugitivos da minha vida, essa é a memória activa e só aí posso colher as flores duradouras da criação. Percorrer esse caminho, mirar-lhe a face persistente… ser tudo e nada ser, no encalce do que me escapa e vai e vem pelas estrias da vida, saturado de luz e de sombras, a um tempo asfixiante e fugidio como as estrelas cadentes.
Dar à luz vezes sem conta, no incontornável vale dos soluços e da incerteza, dar à luz uma vez e outra, em pulsões intensas e reveladoras, a feliz agonia do que se solta, doce crisálida em expansão, metamorfose.
Possa eu nascer, por fim.
Mariana Inverno 11/2011
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RESPIRAÇÃO PERSISTENTE
Publicado: 2011.10.23
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RESPIRAÇÃO PERSISTENTE
hoje despertei insana e contemplei com olhos novos os objectos ouro e prata, as flores quase asfixiadas no apartamento londrino, elas que aspiram aos céus e ao azul e ao ar fresco dos céus que reflectem…
o pouco sentido da repetição diária e a minha alma a empurrar docemente este veículo treinado para a vida de superfície, a minha alma a segredar, inaudíveis as vozes antigas, as futuras, pré-murmúrios de grandes revelações – acho eu que não desisto…
entro na onda do dia e mantenho-me paralela a mim mesma sem saber, pobre criança, como fazer da maneira que a alma queria que eu fizesse, tudo questionado e efémero salvo aquilo que não logro tocar mas que me dá sentido, valor, aquilo que canta que sonha que emerge uma vez e outra, sempre, como o dia, como a noite, como a lua e o sol e esta respiração persistente que me confirma…
se houvesse fios mais visíveis, pistas esclarecedores a alumiar o caminho – dizem ser antigo, tanto como a memória perdida – poderia para mim, quem sabe, acender-se a luz interna das coisas e saberia melhor a fonte do choro e do riso, sombras transmutadas…
poderia, quem sabe, ler nos interstícios, nas brechas, nos vazios, alcançaria a vastidão imensa de quem sou e nela beberia a seiva do infinito pela qual me consumo…
hoje despertei insana e contemplei com olhos novos os objectos ouro e prata, as flores quase asfixiadas no apartamento londrino, elas que aspiram aos céus e ao azul e ao ar fresco dos céus que reflectem…
o pouco sentido da repetição diária e a minha alma a empurrar docemente este veículo treinado para a vida de superfície, a minha alma a segredar, inaudíveis as vozes antigas, as futuras, pré-murmúrios de grandes revelações – acho eu que não desisto…
entro na onda do dia e mantenho-me paralela a mim mesma sem saber, pobre criança, como fazer da maneira que a alma queria que eu fizesse, tudo questionado e efémero salvo aquilo que não logro tocar mas que me dá sentido, valor, aquilo que canta que sonha que emerge uma vez e outra, sempre, como o dia, como a noite, como a lua e o sol e esta respiração persistente que me confirma…
se houvesse fios mais visíveis, pistas esclarecedores a alumiar o caminho – dizem ser antigo, tanto como a memória perdida – poderia para mim, quem sabe, acender-se a luz interna das coisas e saberia melhor a fonte do choro e do riso, sombras transmutadas…
poderia, quem sabe, ler nos interstícios, nas brechas, nos vazios, alcançaria a vastidão imensa de quem sou e nela beberia a seiva do infinito pela qual me consumo…
Mariana Inverno in “Notas Diárias à Sombra dos Tempos”
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PARA ALÉM DOS SENTIDOS
Publicado: 2011.10.16
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se te falasse das pequenas coisas que me assombram ficarias absorta na contemplação de um mundo que quase nunca vês e talvez daí colhesses a tal seiva húmida de que todos precisamos para ver…
vejo fealdade, rostos-esgar a passar em high speed no ar poluído da metrópole, vejo os olhos vibrantemente azuis de um bebé que num canto da cafetaria me olhava como se conhecesse de há milénios – cristais líquidos a desencantar memórias armazenadas algures no espaço akáshico – vejo as flores de fim de verão a desencadear corolas e corolas mântricas sobre o meu ser esfomeado…
canta na casa por muito tempo a água de um duche persistente na tentativa de limpeza daquele ser atormentado, o agressor chora passado o clímax da luta, para que foi tudo aquilo, não levou a nada, não valeu a pena, não vale as mágoas e o vazio…
a mulher-menina que já não é menina mas ainda não mulher apesar do avançado cronológico, segue auto-hipnotizada, a fingir que é quem não é e perde o útero, às vezes as mamas, finalmente a vida toda sem ter a coragem de olhar para dentro…
gritam, matam-se e esfolem, brandem armas em nome do único deus, dos direitos do povo, sujos, delinquentes, habitados pelo ódio, incapazes, incapazes – fios manipulatórios respiram de alívio…lá se foi mais um ditador que já não serve…
e eu e a minha pele suave, eu e os meus olhos de luz que os sinto assim sempre, eu quem sou por onde vou se é que vou por algum lado, aonde e quando colherei o meu prana, já que o tempo corre agora como a própria luz e se evade de mim como amante perseguido…
concentra-te em mim se puderes, busco-te para além do que sabes de ti mesma, alcanço-te por vezes no elusivo timbre da tua nota cósmica, aí me fundo no eterno abraço…
Mariana Inverno in “Notas Diárias à Sombra dos Tempos”
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José e Pilar
Publicado: 2011.10.13
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O filme, co-produzido pelos realizadores brasileiro Fernando Meirelles e espanhol Pedro Almodóvar, membros da Academia Americana de Artes e Ciências Cinematográficas, foi o escolhido para representar Portugal nos prémios mais cobiçados do mundo do cinema. No entanto, “José e Pilar”, um retrato intimista da relação entre o escritor e Nobel da Literatura e a sua companheira Pilar del Río, é ainda um candidato à nomeação aos Óscares.
O documentário, que estreou em Portugal em 2010 e foi visto por 22 mil espectadores, foi considerado o quarto filme português mais visto do ano, apenas abaixo de “A Bela e o Paparazzo”, “Contraluz” e “Filme do Desassossego”, e foi ainda o segundo documentário mais visto de sempre em Portugal, atrás de “Fados”.
Aos Estados Unidos, de acordo com a produtora Jumpcut, o filme vai chegar às salas em Abril do próximo ano, depois de já ter estreado na Espanha, Brasil e Itália.
Esta notícia surge depois de ter sido criada uma petição pública na Internet que pedia que “José e Pilar” fosse o candidato de Portugal a uma nomeação para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, somando, até agora, 2439 assinaturas.
Segundo o comunicado do ICA, “a escolha deste filme foi feita por uma comissão, composta por representantes de associações do sector, previamente submetida à aprovação da Academia Americana de Artes e Ciências Cinematográficas”.
“José e Pilar” foi nomeado na categoria de Melhor Filme para os prémios SPA e na categoria de Melhor Filme Documental, pela Academia Brasileira de Cinema. No Brasil, o filme foi ainda distinguido com o Prémio do Público da mostra de São Paulo e com o Prémio do Público da Mostra Visões Sul.
Fonte: Público
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NARCISISMO
Publicado: 2011.10.10
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Os traços subjacentes às personalidades narcisistas encontram nos tempos que correm terreno fértil para desenvolvimento. Tudo na cultura popular e dos media sugere um atraente potencial de sucesso para o narcisista, ou seja, aquele que tem um sentido grandioso de si mesmo e que se sente, por conseguinte, com direito a um melhor tratamento do que os outros por ser especial e único.
O narcisista começa por ser atractivo e sedutor para os outros. Ele está imbuído de auto-paixão e é uma lenda para si mesmo. No entanto, a prazo, essas características acabam por se reflectir negativamente nos relacionamentos pois ninguém pode alimentar nada de criativo a olhar mesmerizado para a própria imagem como se o mundo começasse e acabasse nela.
Há uma errónea tendência para confundir narcisismo com uma boa auto-estima. Enquanto esta representa o pilar seguro de uma personalidade estruturada e saudável, os traços narcisistas – os quais existem em diferentes graus nas pessoas podendo atingir níveis de desordem grave – porque exageradamente focados num só ser, acabam por atingir gravemente tudo e todos à sua volta, em especial o próprio.
Um narcisista é, de forma geral, arrogante, detem um ilimitado sentido de superioridade, sente que tudo lhe é devido e que não se submete ao que está abaixo do seu estatuto. Essencialmente egóico, centra as conversas à volta de si mesmo, vê-se e descreve-se como protagonista fabuloso das histórias fantasiadas que lhe acontecem e alimenta relações tendo em vista as suas próprias necessidades narcisistas. Não está particularmente interessado no outro (a não ser para os actos dos quais possa sair auto-glorificado), a bitola para todas as coisas passa pela resposta à pergunta que sempre se coloca: “Como é que isto/esta pessoa me faz sentir/me serve?”
Alimentar o ego desproporcionado, sentir-se bem, parecer ainda melhor e ouvir apenas aquilo que possa agradar aos traços doentios de uma personalidade espelhada no lago da popularidade, do ser-se especial e do sucesso constituem, em resumo, o leitmotiv deste tipo psicológico.
A exacerbação do materialismo (com todas as desordens que lhe são inerentes) tem dado origem, e nomeadamente neste milénio, a um acentuado crescimento destes traços entre os mais jovens. Na base deste fenómeno vive a ausência de valores espirituais, única força capaz de conter e transmutar a agressividade e a violência que por todo o mundo proliferam, bem como desmascarar a falácia da auto-promoção e da crença em se ser único e melhor do que o outro. A muito alimentada fantasia de que a pessoa é melhor do que realmente é – e certamente melhor do que os outros à sua volta – ignorando a realidade dos factos, está na origem de uma desordem individual e colectiva que começa a atingir níveis inquietantes. O facilitismo na educação – pais indulgentes que com ilimitada complacência buscam construir a auto-estima dos filhos com elogios exagerados e um sistema escolar que baixa o nível de exigência e inflaciona as notas para corresponder aos requisitos das estatísticas -, o irrealismo do crédito fácil de um sistema financeiro ganancioso e virtual, bem como a constante pressão a todos os níveis para nos tornarmos “mais belos, mais ricos, mais bem sucedidos” do que o outro, tem levado as gerações mais novas a um beco sem saída bem representado na superficialidade dos “reality shows” onde perece toda a dimensão espiritual do ser.
Em resumo, o tão cantado “amor a si próprio”, quando de inspiração narcisista, ameaça tornar-nos num mundo de egocêntricos, obsessivamente concentrados na nossa aparência, bem estar pessoal, poder material e apenas e só naquilo que possa servir os nossos interesses pessoais. O narcisista tem sempre grandes expectativas em relação à sua vida mas é irrealista nas correspondentes projecções de fama e estatuto. A mulher sai especialmente afectada deste fenómeno, pois as características próprias da sua sensibilidade não se coadunam com a pressão e as tensões a que o fenómeno narcisista dá lugar. Num artigo publicado no “Guardian”(2009), Madeleine Bunting refere que a identidade das mulheres foi sempre emoldurada pelos seus relacionamentos- como mães, filhas, esposas, amigas e irmãs e que a “relacionabilidade” é ainda central para o modo como as mulheres vivem as suas vidas. Contudo ela não se coaduna com esta cultura individualista, intensamente competitiva e narcisista. Isto dá-nos a pista para a cura de um mal que hoje ameaça atingir proporções epidémicas. Como em muitos outros campos, é ainda da mulher, geradora de vida e principal formadora do mundo de amanhã, que a consciência destes factos tem de emergir. E é principalmente dela que se espera a denúncia dos mesmos e as linhas orientadoras conducentes a um mundo mais são, onde se faça de novo sentir a música do espírito.
Mariana Inverno in “Notas Diárias à Sombra dos Tempos”
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A Palavra e os cenários de papel
Publicado: 2011.10.03
Categoria: Blog :
Vejo ter aumentado consideravelmente nos nossos tempos a onda de gente que crê (ou pretende fazer crer aos outros) que, através de visualizações e frases afirmativas do “lado positivo da vida” e de um febril optimismo a raiar o desequilíbrio, tudo andará pelo melhor e os problemas desaparecerão, como por encanto. Trata-se, provavelmente de impulsos compensatórios, máscaras de optimismo e de acção criativa às quais faltam naturalmente sustentáculo nas profundezas do ser. Daí a inconstância de objectivos, a mobilidade dos interesses e afectos e as súbitas mudanças de rota a que, oportunamente, se chama “viver o momento”. Santa inocência!
A palavra que não está assente na vivência pessoal ou que representa uma forçada interpretação da mesma, esboroa-se e não atinge verdadeiramente o coração do outro. Fica ao nível do cenário e todos os cenários acabam por cair.
Vivemos num tempo de depuração máxima e a palavra é um instrumento de alto poder. Por esse motivo, ela deve ter neste tempo excepcional um papel único de chamamento à realidade (holística) de cada um e de todos. Em vez de cenários róseos e do papaguear das conclusões de alegados grandes mestres, a palavra deve servir para o incitamento à coragem da auto-revelação, para a expressão da alma que frequentemente, a gritos, procura ser ouvida.
Os sinais de tal apelo são, como sempre foram, reconhecíveis nas inexplicáveis angústias que nos assaltam, nas sincronicidades da vida, nos padrões circunstanciais que “aterram” na nossa existência, na nossa saúde e portanto nas enfermidades do corpo, nos sonhos – plataforma interpretativa e complementar da experiência consciente -, nos passos atrás e nos difíceis e muitas vezes repetitivos bloqueios ao caminho planeado. São as chaves para o descobrimento pessoal, para os mistérios selados na nossa interioridade e para o enfrentamento dos quais não fomos devidamente preparados.
Acredito que partilhar, na medida possível, esta viagem, pressupõe humildade e entrega. Passar para palavras, sem efeitos especiais, o encontro consigo mesmo, poderá representar uma contribuição infinitamente mais duradoura para o avanço comum, do que mil frases, perfeitas e visionárias, que não saíram de nós.
Levantar os véus que se interpõem entre nós e o que verdadeiramente somos, é um grande desafio. Passar para palavras essa nossa experiência constitui um repto de proporções gigantescas, pois apenas em linha directa com a alma o podemos fazer.
Só a palavra que vem de dentro, funda e ressonante, exercício da Verdade, ecoa pelos espaços recônditos da Consciência.
Vejo ter aumentado consideravelmente nos nossos tempos a onda de gente que crê (ou pretende fazer crer aos outros) que, através de visualizações e frases afirmativas do “lado positivo da vida” e de um febril optimismo a raiar o desequilíbrio, tudo andará pelo melhor e os problemas desaparecerão, como por encanto. Trata-se, provavelmente de impulsos compensatórios, máscaras de optimismo e de acção criativa às quais faltam naturalmente sustentáculo nas profundezas do ser. Daí a inconstância de objectivos, a mobilidade dos interesses e afectos e as súbitas mudanças de rota a que, oportunamente, se chama “viver o momento”. Santa inocência!
A palavra que não está assente na vivência pessoal ou que representa uma forçada interpretação da mesma, esboroa-se e não atinge verdadeiramente o coração do outro. Fica ao nível do cenário e todos os cenários acabam por cair.
Vivemos num tempo de depuração máxima e a palavra é um instrumento de alto poder. Por esse motivo, ela deve ter neste tempo excepcional um papel único de chamamento à realidade (holística) de cada um e de todos. Em vez de cenários róseos e do papaguear das conclusões de alegados grandes mestres, a palavra deve servir para o incitamento à coragem da auto-revelação, para a expressão da alma que frequentemente, a gritos, procura ser ouvida.
Os sinais de tal apelo são, como sempre foram, reconhecíveis nas inexplicáveis angústias que nos assaltam, nas sincronicidades da vida, nos padrões circunstanciais que “aterram” na nossa existência, na nossa saúde e portanto nas enfermidades do corpo, nos sonhos – plataforma interpretativa e complementar da experiência consciente -, nos passos atrás e nos difíceis e muitas vezes repetitivos bloqueios ao caminho planeado. São as chaves para o descobrimento pessoal, para os mistérios selados na nossa interioridade e para o enfrentamento dos quais não fomos devidamente preparados.
Acredito que partilhar, na medida possível, esta viagem, pressupõe humildade e entrega. Passar para palavras, sem efeitos especiais, o encontro consigo mesmo, poderá representar uma contribuição infinitamente mais duradoura para o avanço comum, do que mil frases, perfeitas e visionárias, que não saíram de nós.
Levantar os véus que se interpõem entre nós e o que verdadeiramente somos, é um grande desafio. Passar para palavras essa nossa experiência constitui um repto de proporções gigantescas, pois apenas em linha directa com a alma o podemos fazer.
Só a palavra que vem de dentro, funda e ressonante, exercício da Verdade, ecoa pelos espaços recônditos da Consciência.
Mariana Inverno in “Notas Diárias à Sombra dos Tempos”
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Salavisa: E, no entanto, ele dança
Publicado: 2011.09.26
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Marco Martins queria pô-lo a dançar. Sabia que para olhar para os 50 anos de carreira de Jorge Salavisa teria de mergulhar em muitas horas de imagens de arquivo, mas tinha esperança de encontrar algumas em que o homem que dirigiu o Ballet Gulbenkian e a Companhia Nacional de Bailado se revelasse o bailarino que foi durante tantos anos, 18 dos quais fora de Portugal.
A tarefa acabou por ser mais difícil do que o realizador estava à espera, mas o documentário que estreia hoje às 21h no Teatro Municipal S. Luiz, em Lisboa, a casa de Salavisa entre 2002 e 2010, mostra-nos mesmo como ele dançava. “Aquela sequência do “Othello” [Salavisa como Yago numa produção do New London Ballet] é uma prenda para o espectador”, diz ao PÚBLICO Marco Martins.
Não é de estranhar que o realizador de 39 anos nunca o tivesse visto dançar. Aos 71, foi também a primeira vez para o próprio Salavisa: “O Marco mostrou-me aquelas imagens, que me deixaram muito assustado, e pus-me a pensar: “Foi preciso chegar aos 70 anos para ver isto.” É que nesta altura em que qualquer um filma com o telemóvel, as pessoas têm dificuldade em imaginar uma época em que não havia vídeo e só as televisões filmavam a dança e o teatro que se fazia. Eu tinha visto uma ou outra cena em que eu aparecia, mas só por instantes. A dançar, assim, nunca tinha visto.”
“Jorge Salavisa – Keep Going” (Filmes do Tejo em co-produção com a RTP2, a Gulbenkian e a Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural da Câmara de Lisboa, a EGEAC) é um documentário de uma hora em que Marco Martins traça a carreira do antigo bailarino e director artístico, recorrendo a arquivos em Lisboa, Londres, Paris e Hong Kong. A narrativa é cronológica, autobiográfica (na primeira parte essencialmente em voz off, a do próprio Salavisa), e fez-se com base em memórias pessoais e em três entrevistas formais feitas pelo realizador…
FONTE : Público
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À REVELIA DA SIMPLICIDADE
Publicado: 2011.09.26
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À REVELIA DA SIMPLICIDADE
“O nosso verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós próprios.” MARGUERITE YOURCENAR
Tenho estado todo o dia a pensar no que a Marguerite Yourcenar escreveu sobre o momento em que verdadeiramente nascemos. Corresponde, creio, a um corajoso estádio de lucidez sobre nós mesmos, a tal capacidade de olhar a miséria própria, sem disfarces, desculpas ou artificiosas explicações. Muito difícil, pois nada nos prepara para tal.
As pessoas, em geral, nada sabem sobre si mesmas, atrevo-me a dizer. Construíram um guião ao longo da vida, nutrido pelo que o meio ambiente lhes foi fornecendo como estímulo ou freio, e na dança e contradança da construção de um “Eu” viável, passando pela sobrevivência e por toda a mentira social, lá vai o ego saltitando de história em história, de causa em causa, em total ignorância do que realmente se passa nos bastidores (os próprios e os do entorno).
Confrange-me sempre o mau uso da palavra “simplicidade”. Eu sou um rapaz simples, eu gosto de frases simples, a mim chega-me uma vida simples, quero em toda a simplicidade ajudar os outros, representam em geral mecanismos de defesa face à própria auto-ignorância e dos caminhos do mundo em geral. Se formos simples, nada demais nos será exigido, podemos escudar-nos na nossa “simplicidade”. Mas a grande prova chega quando em vez da simplificação que apenas ilude, conseguimos encontrar a coragem e a pontinha de sabedoria indispensáveis para olhar de frente e a fundo o que reside por detrás dessa parede amarelinha e clara que é a fachada que mostramos ao mundo. À revelia dela vivem traumas, inseguranças, obsessões, carências, medos, sonhos desfeitos, dores de toda a ordem que nos habituámos a guardar num armário secreto longe da vista alheia, sobretudo longe da nossa.
Assim, tal como diz a Yourcenar, não me parece que tenhamos realmente aportado à verdadeira existência antes de sermos capazes de lançar sobre nós mesmos um olhar informado, prescrutante, laseriano, objectivo e tanto quanto possível isento na sua análise do que nos move lá das profundezas, que lixo deixámos para trás, que negações ou falsas verdades nos auto-impusemos para ir cumprindo o guião.
Ninguém é inocente! Estamos todos envolvidos numa trama mais ou menos complexa e as ”pessoas simples” e as “vidas simples” são parte da fábula que nos contamos. Para distrair da verdadeira problemática:o trabalho não feito. Esse facto é por sobremaneira evidente em quem se arvora em condutor/curador/reformador da humanidade, uma espécie em franco desenvolvimento na actualidade. A pessoa relativamente estruturada empresta equilíbrio aos outros, sem nada ter de apregoar ou defender. É que a sua própria vida reflecte indiscutivelmente esse facto, tenha ela o formato que tiver.
Ninguém é inocente, eu também o não sou. Passei muitas dores e atropeços para chegar a este ponto e, ao escrever estas palavras, mil imagens de falseamentos e ilusões me assaltam a mente e me doem no coração.
Escrevo à revelia do que não quero parecer que sou sem o ser. Apenas alguém que trabalha para tentar dar nascimento apropriado a si mesma.
“O nosso verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós próprios.” MARGUERITE YOURCENAR
Tenho estado todo o dia a pensar no que a Marguerite Yourcenar escreveu sobre o momento em que verdadeiramente nascemos. Corresponde, creio, a um corajoso estádio de lucidez sobre nós mesmos, a tal capacidade de olhar a miséria própria, sem disfarces, desculpas ou artificiosas explicações. Muito difícil, pois nada nos prepara para tal.
As pessoas, em geral, nada sabem sobre si mesmas, atrevo-me a dizer. Construíram um guião ao longo da vida, nutrido pelo que o meio ambiente lhes foi fornecendo como estímulo ou freio, e na dança e contradança da construção de um “Eu” viável, passando pela sobrevivência e por toda a mentira social, lá vai o ego saltitando de história em história, de causa em causa, em total ignorância do que realmente se passa nos bastidores (os próprios e os do entorno).
Confrange-me sempre o mau uso da palavra “simplicidade”. Eu sou um rapaz simples, eu gosto de frases simples, a mim chega-me uma vida simples, quero em toda a simplicidade ajudar os outros, representam em geral mecanismos de defesa face à própria auto-ignorância e dos caminhos do mundo em geral. Se formos simples, nada demais nos será exigido, podemos escudar-nos na nossa “simplicidade”. Mas a grande prova chega quando em vez da simplificação que apenas ilude, conseguimos encontrar a coragem e a pontinha de sabedoria indispensáveis para olhar de frente e a fundo o que reside por detrás dessa parede amarelinha e clara que é a fachada que mostramos ao mundo. À revelia dela vivem traumas, inseguranças, obsessões, carências, medos, sonhos desfeitos, dores de toda a ordem que nos habituámos a guardar num armário secreto longe da vista alheia, sobretudo longe da nossa.
Assim, tal como diz a Yourcenar, não me parece que tenhamos realmente aportado à verdadeira existência antes de sermos capazes de lançar sobre nós mesmos um olhar informado, prescrutante, laseriano, objectivo e tanto quanto possível isento na sua análise do que nos move lá das profundezas, que lixo deixámos para trás, que negações ou falsas verdades nos auto-impusemos para ir cumprindo o guião.
Ninguém é inocente! Estamos todos envolvidos numa trama mais ou menos complexa e as ”pessoas simples” e as “vidas simples” são parte da fábula que nos contamos. Para distrair da verdadeira problemática:o trabalho não feito. Esse facto é por sobremaneira evidente em quem se arvora em condutor/curador/reformador da humanidade, uma espécie em franco desenvolvimento na actualidade. A pessoa relativamente estruturada empresta equilíbrio aos outros, sem nada ter de apregoar ou defender. É que a sua própria vida reflecte indiscutivelmente esse facto, tenha ela o formato que tiver.
Ninguém é inocente, eu também o não sou. Passei muitas dores e atropeços para chegar a este ponto e, ao escrever estas palavras, mil imagens de falseamentos e ilusões me assaltam a mente e me doem no coração.
Escrevo à revelia do que não quero parecer que sou sem o ser. Apenas alguém que trabalha para tentar dar nascimento apropriado a si mesma.
Mariana Inverno in “Notas Diárias à Sombra dos Tempos”
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AS EMOÇÕES E O POLITICAMENTE CORRECTO
Publicado: 2011.08.29
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Calar as emoções e seguir a nossa vida da forma habitual sem as expressar é, com frequência, considerado politicamente correcto. Próprio dos educados, dos evoluídos mesmo.
Considera-se correcto não levantar a voz, não agitar os ares, não causar alterações abruptas numa ordem que se quer sem grandes ondas ou inconveniências para merecer o epíteto de civilizada!
Assim, as emoções e as dores, fechadas à chave nos recônditos do ser, fermentam perigosamente no veneno da sua não expressão e transformam-se em não detectáveis corpos de anti-vida os quais, cedo ou tarde, nos hão-de consumir em silêncio, de dentro para fora, e levar o mais precioso dos nossos bens: a saúde e mesmo a Vida.
Não sou politicamente correcta e sinto a Vida em mim com uma intensidade pouco habitual. Acima de tudo, preciso de a expressar, como indispensável me é o ar que respiro.
Ao contrário do que muito boa e “qualificada” gente proclama, acredito ser de toda a vantagem para o ser verbalizar a panóplia de emoções que o assaltam, desde a alegria à dor, do desapontamento ao medo e mesmo a própria zanga. Isto porque é importante tentar reconhecer o que nos habita, sem coloridos hiperbólicos ou a odiosa máscara de “se ser bom e estar acima do lixo emocional próprio dos fracos”, encará-lo e dar-lhe voz no momento adequado. Desde que não nos descontrolemos ou descarreguemos as nossas emoções de forma inadvertida sobre inocentes terceiros que possam estar no nosso caminho. Desde que cuidemos a linguagem que utilizamos, sem recurso a asneiras ou termos de mau gosto, os quais podem rapidamente acarretar o descontrole.
Dar expressão ao que nos vai dentro é próprio do ser humano e liberta-nos. Como, de dentro de um quarto abafado, abrir uma janela de par em par para o ar fresco da manhã.
A verdade é sempre algo relativo, pois cada um detém a sua. A mim cabe-me buscar e dar expressão à minha, apresentando-a em toda a sua inteireza perante o outro.
Ser assim leva-nos muitos “amigos”. Elimina os politicamente correctos, para começar, os dissimulados, os falsos, os oportunistas, os teatreiros e os que se relacionaram com uma projecção mas nunca com o nosso verdadeiro ser. Cabe-nos muitas vezes a culpa de isso ter acontecido, pois o tango, em especial o da vida, é sempre dançado a dois.
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