Novas Respostas da Ciência
O investigador Manuel Sobrinho Simões defendeu hoje que as “chamadas ciências duras (ciências exactas) têm de rapidamente ganhar a humildade suficiente para se articularem com as ciências ditas não duras, humanas ou humanidades”. Sublinhou ainda que “os desafios do mundo actual são muito mais culturais e políticos do que científicos”.
O
director do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP) falava a propósito da conferência que irá proferir quinta feira, no Porto, sobre «Novas respostas da ciência», integrada no ciclo «Novas Respostas a Novos desafios», organizado pela Fundação Mário Soares e Fundação Inatel.
O investigador defende que é necessário evoluir de uma perspectiva científico-tecnológica para “uma muito mais cultural, política e, no limite, até religiosa”. Frisou que acredita que é a cultura que perspectiva a ciência e não o contrário.
Do ponto de vista científico, o Sobrinho Simões considera que “tudo tem sido feito. Temos robôs, capacidade de fazer medicina regenerativa, capacidade de a partir de células estaminais reproduzir organismos e as nanotecnologias são extraordinárias, pela capacidade que têm de aumentar a eficiência”.
“Mas, como somos cada vez mais egoístas, mais mimados como sociedade, acostumados a ter tudo, a ter bem-estar e a gastar muito, estas respostas da ciência, por estranho que pareça, se calhar estão a acelerar os desafios que são mais globais: o da demografia, o do clima, o do esgotamento dos recursos naturais”, acrescentou.
Melhoria genética das pessoas
Assim, em seu entender, “a resposta científica pode ser uma tragédia. Se não introduzirmos controlos éticos, por exemplo, vamos poder fazer melhoria genética das pessoas e isto, penso eu, não é desejável em termos da sociedade”.
“Não me refiro a curar doenças e ao aconselhamento genético, mas sim aos pais que querem que os filhos sejam mais bonitos, mais inteligentes e tenham olhos azuis. É um desafio que se põe hoje a ciência e que tem de ser resolvido”, frisou.
E questiona: “Será que este desafio interessa à sociedade? Será que a sociedade está disposta a tolerar a melhoria genética?” Sobrinho Simões considera que “o que tem graça, nas respostas da ciência, é que são muito inteligentes e eficientes, mas tem de ser enquadradas culturalmente e politicamente, senão podem contribuir para acelerar os desafios horrorosos com que a sociedade mundial se defronta hoje”.
A conferência sobre “Novas respostas da ciência” realiza-se amanhã, na Casa Jorge de Sena, no Porto, e contará com a participação de Mário Soares e Vítor Ramalho, que irão conduzir o debate.
Fonte: Ciência Hoje

