Diálogo
Fico sempre embaraçada perante a impossibilidade da maioria das pessoas serem capazes de sustentar um diálogo franco e construtivo entre elas, diálogo para o qual concorrem diferentes pontos de vista, por vezes tantos como os interlocutores em jogo.
Parece que muito pouca gente gosta de ver as suas crenças/pontos de vista minimamente questionadas e prefere uma falsa harmonia à efervescente ebulição do avanço conjunto, assente na contribuição autêntica de cada um. Acho que isto se fica a dever à fraca estrutura em que os seres assentam as suas vidas, sem um trabalho de fundo. A “verdade” é algo da autoria de outrem. colado à pressa na camada superficial do ser, entretanto rigidificado numa atitude defensiva. O recurso a atitudes arrogantes, quando não ao insulto, é a consequência habitual.
Pergunto-me. qual é o interesse de viver num mundo de “Améns” (por força, falsos, na sua maioria), será que não são por demais evidentes os efeitos nefastos da paz podre?
As patéticas audiências de gente a acenar que sim, que sim, que sim… que sim, o quê Por quê? Assente em quê? Para quê?
As patéticas audiências a não dizerem nada, porque nada têm para dizer, ou se têm, não dizem, porque pode não ser politicamente correcto e arranjam-se sarilhos.
As patéticas audiências de seres armados até aos dentes para defenderem o que trazem colado à pele da sua (in)segurança pessoal (carreira, estatuto, protagonismo de algum tipo).
Algo parafraseando o poeta, dai-me rosas, dai-me rosas, e o fluir da água, e o ar livre em movimento.
Dai-me a vossa voz, a que corre nos átomos do corpo inquieto, perplexo, atento aos indecifráveis mistérios, a que jorra da mente empenhada e do coração tenro…
MARIANA INVERNO, in “Notas Diárias à Sombra dos Tempos”

(para a obra Diálogo Secreto das Luas de Felippa Lobato)
por entre pedras de escuro e de silêncio
águas densas imóveis
a lua apanham no espelho
intemporal do seu repouso
mundos reflexos imagens
em cima como em baixo
eu canto
a dimensão maior
onde a alma cresce
viajam formas sobre formas
todas as formas
sobre a forma original
na repousante doce
reciprocidade lunar
eu canto
a incorruptível beleza
luz divina
e o ser futuro iniciado dançante
entre luas
subtil ágil
promissor coração esvoaçante
entre luas
como amor alado como sopro
os céus actuam sobre a terra
vertiginoso audaz
cresce o sonho
claros lábios de água
acariciam novo tempo
Mariana Inverno
POR DETRÁS DE MIM MESMA

Não sei o que me assalta, hoje em dia.
Estou contente, logo triste.
A minha alma anseia pela graça e tudo reviro na ânsia de a encontrar. É, contudo, no estar quieta que ela melhor percorre o interior das minhas células, aliviando-me de todos os pesos, mesmo do de estar viva.
Fico ensimesmada a pensar no motivo de tantos altos e baixos, eu que fui sempre uma criatura na aparência estável e equilibrada. Gosto e deleito-me em todas as coisas que em geral encantam o género humano: flores, crianças, ternura, afectos, boas comidas, fragrâncias, beleza, sonho, canto, música…
Mas há um sítio-estádio onde nada disso parece contar muito. Difícil descrevê-lo, complicado alcançá-lo…É como os meus olhos a olharem para dentro de si mesmos, é como se por detrás de mim estivesse eu mesma e para o nosso diálogo não tivesse sido achada por ora a palavra justa.
Portais a abrirem-se, certezas totais moldáveis como um plasma, choro, dádiva, dúvida sistemática recorrente como a estação fria em cada ano, solidão, união, ausência…
Triste ou contente, resisto mais.
De algum modo, sou mais vezes e por mais tempo a que está por detrás de mim mesma.
Amparo-me nesse facto.
Mariana Inverno
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