Nem Dürers, nem Pessoas
por Leonardo Melo Gonçalves
Pergunto-me frequentemente porque é que a Arte hoje em dia tem de ser feia. E quando falo de Arte, não me refiro apenas às artes plásticas, mas incluo todas as formas de Arte, incluindo a literatura. Aquela afirmação de Braque, «a Arte incomoda», tornou-se regra sine qua non. O que é Arte tem de ser feio, grosseiro, mal-cheiroso, nauseabundo, piroso ou, ainda melhor, uma conjunção caótica de todos estes ingredientes. E se é literatura, nenhum romance ganha hoje destaque perante a opinião pública sem uma boa dose de “efes”, “cês” e outros “quês”. É difícil acomodar-me a esta realidade. É-me ainda mais difícil fazê-lo depois de ter passado alguns dias na cidade natal de Albrecht Dürer, Nuremberga, na Baviera Alemã.
Dürer vivia obcecado com a Beleza. É fácil imaginá-lo sentado no seu luminoso atelier, no segundo andar da casa onde vivia, elaborando infindáveis estudos, conjecturando sobre as proporções do belo, sobre como sintetizar a Beleza em termos matemáticos, dividindo, por exemplo, uma cabeça humana em secções distintas e procurando nelas encontrar chaves de proporção, simetrias e relações escondidas que a Natureza decidiu impregnar nos nossos corpos e fez-nos reconhecê-las, simplesmente, como Beleza. A obra de Dürer é hoje algo tocante, já que parece que o seu esforço de repetir a acção da Natureza e impregnar a sua Arte de Beleza é hoje contraposto com um esforço em igual proporção para fazer exactamente o contrário: retirar, tornar ausente, esvaziar toda a Beleza da Arte.
O elemento estranho, o paradoxo, nesta observação não é o acto dos artistas não quererem ou não conseguirem tornar a sua Arte bela. É o facto da sociedade apreciar o feio, o grosseiro. E compreende-se em certa medida. A Arte é hoje uma actividade quase puramente comercial. Assim sendo, a beleza constata-se e passa-se à frente. A fealdade discute-se, levanta problemas éticos, ofende, gera críticas, que são publicadas e que levam mais pessoas a ver ou a ler a Arte feia, para deleite de editores, galeristas, críticos e de outros que ali orbitam financeiramente. Portanto a Arte bela não rende. Hoje compensa escrever mal, escrever apenas para ofender (ou para tentar ofender, que já ninguém se ofende acho eu). Compensa pintar coisas disformes e sem significado algum. Ou compensa ainda mais não pintar nada, como naquela peça de teatro de Yasmina Reza, “Arte”, onde um personagem gasta uma fortuna num quadro em branco e os seus amigos oscilam entre elogios ao bom-gosto do amigo ou a afirmar simplesmente «this painting is shit».
Nesta peça, como no dia-a-dia, o grande problema é, no final de contas, a falta de cultura, ou talvez a falta de atitude perante a pseudo-cultura. A coberto do «eu não percebo nada de Arte», que cada vez se ouve mais dada a confusão que reina por aí, impinge-se todo o tipo de lixo.
Hoje, praticamente já não há intérpretes da Beleza. Já não há Dürers na pintura, nem Pessoas na literatura. A Beleza saiu da Arte, como um rato que foge de um navio que se afunda. O rato afoga-se, mas a Beleza paira até que alguém a redescubra.
Crónica: Às Vocações, por Leonardo Melo Gonçalves em Nicotina Magazine.



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