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Fernando Pessoa

Nem Dürers, nem Pessoas

por Leonardo Melo Gonçalves

durerPergunto-me frequentemente porque é que a Arte hoje em dia tem de ser feia. E quando falo de Arte, não me refiro apenas às artes plásticas, mas incluo todas as formas de Arte, incluindo a literatura. Aquela afirmação de Braque, «a Arte incomoda», tornou-se regra sine qua non. O que é Arte tem de ser feio, grosseiro, mal-cheiroso, nauseabundo, piroso ou, ainda melhor, uma conjunção caótica de todos estes ingredientes. E se é literatura, nenhum romance ganha hoje destaque perante a opinião pública sem uma boa dose de “efes”, “cês” e outros “quês”. É difícil acomodar-me a esta realidade. É-me ainda mais difícil fazê-lo depois de ter passado alguns dias na cidade natal de Albrecht Dürer, Nuremberga, na Baviera Alemã.

Dürer vivia obcecado com a Beleza. É fácil imaginá-lo sentado no seu luminoso atelier, no segundo andar da casa onde vivia, elaborando infindáveis estudos, conjecturando sobre as proporções do belo, sobre como sintetizar a Beleza em termos matemáticos, dividindo, por exemplo, uma cabeça humana em secções distintas e procurando nelas encontrar chaves de proporção, simetrias e relações escondidas que a Natureza decidiu impregnar nos nossos corpos e fez-nos reconhecê-las, simplesmente, como Beleza. A obra de Dürer é hoje algo tocante, já que parece que o seu esforço de repetir a acção da Natureza e impregnar a sua Arte de Beleza é hoje contraposto com um esforço em igual proporção para fazer exactamente o contrário: retirar, tornar ausente, esvaziar toda a Beleza da Arte.

O elemento estranho, o paradoxo, nesta observação não é o acto dos artistas não quererem ou não conseguirem tornar a sua Arte bela. É o facto da sociedade apreciar o feio, o grosseiro. E compreende-se em certa medida. A Arte é hoje uma actividade quase puramente comercial. Assim sendo, a beleza constata-se e passa-se à frente. A fealdade discute-se, levanta problemas éticos, ofende, gera críticas, que são publicadas e que levam mais pessoas a ver ou a ler a Arte feia, para deleite de editores, galeristas, críticos e de outros que ali orbitam financeiramente. Portanto a Arte bela não rende. Hoje compensa escrever mal, escrever apenas para ofender (ou para tentar ofender, que já ninguém se ofende acho eu). Compensa pintar coisas disformes e sem significado algum. Ou compensa ainda mais não pintar nada, como naquela peça de teatro de Yasmina Reza, “Arte”, onde um personagem gasta uma fortuna num quadro em branco e os seus amigos oscilam entre elogios ao bom-gosto do amigo ou a afirmar simplesmente «this painting is shit».

Nesta peça, como no dia-a-dia, o grande problema é, no final de contas, a falta de cultura, ou talvez a falta de atitude perante a pseudo-cultura. A coberto do «eu não percebo nada de Arte», que cada vez se ouve mais dada a confusão que reina por aí, impinge-se todo o tipo de lixo.

Hoje, praticamente já não há intérpretes da Beleza. Já não há Dürers na pintura, nem Pessoas na literatura. A Beleza saiu da Arte, como um rato que foge de um navio que se afunda. O rato afoga-se, mas a Beleza paira até que alguém a redescubra.

Crónica:  Às Vocações, por Leonardo Melo Gonçalves em Nicotina Magazine.


2010 – Espólio integral de Pessoa on-line

pessoaA Biblioteca Nacional Digital (BND), departamento da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) que disponibiliza 10.500 títulos em formato electrónico, vai colocar online no próximo ano o espólio integral de Fernando Pessoa.

Das obras de autores portugueses disponibilizadas na BND nos últimos dois anos, destacam-se, pelo seu carácter único, “os 29 cadernos manuscritos e o dactiloscrito da ‘Mensagem’ de Fernando Pessoa e os documentos dos espólios de José Saramago, Antero de Quental e Camilo Pessanha”.

Camilo Castelo Branco, António Feliciano de Castilho, Almeida Garrett, Alexandre Herculano ou Eça de Queirós são outros dos autores representados na BND, cujas obras foram digitalizadas a partir do fundo documental da Biblioteca Nacional de Portugal.

Helena Patrício, directora de Serviços de Sistemas de Informação da BNP,  assinalou ainda que estão prontas para colocação online 472.000 imagens de jornais portugueses do século XIX e de livros antigos impressos em Portugal no século XVI.


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