mariana inverno
RESPIRAÇÃO PERSISTENTE
hoje despertei insana e contemplei com olhos novos os objectos ouro e prata, as flores quase asfixiadas no apartamento londrino, elas que aspiram aos céus e ao azul e ao ar fresco dos céus que reflectem…
o pouco sentido da repetição diária e a minha alma a empurrar docemente este veículo treinado para a vida de superfície, a minha alma a segredar, inaudíveis as vozes antigas, as futuras, pré-murmúrios de grandes revelações – acho eu que não desisto…
entro na onda do dia e mantenho-me paralela a mim mesma sem saber, pobre criança, como fazer da maneira que a alma queria que eu fizesse, tudo questionado e efémero salvo aquilo que não logro tocar mas que me dá sentido, valor, aquilo que canta que sonha que emerge uma vez e outra, sempre, como o dia, como a noite, como a lua e o sol e esta respiração persistente que me confirma…
se houvesse fios mais visíveis, pistas esclarecedores a alumiar o caminho – dizem ser antigo, tanto como a memória perdida – poderia para mim, quem sabe, acender-se a luz interna das coisas e saberia melhor a fonte do choro e do riso, sombras transmutadas…
poderia, quem sabe, ler nos interstícios, nas brechas, nos vazios, alcançaria a vastidão imensa de quem sou e nela beberia a seiva do infinito pela qual me consumo…
hoje despertei insana e contemplei com olhos novos os objectos ouro e prata, as flores quase asfixiadas no apartamento londrino, elas que aspiram aos céus e ao azul e ao ar fresco dos céus que reflectem…
o pouco sentido da repetição diária e a minha alma a empurrar docemente este veículo treinado para a vida de superfície, a minha alma a segredar, inaudíveis as vozes antigas, as futuras, pré-murmúrios de grandes revelações – acho eu que não desisto…
entro na onda do dia e mantenho-me paralela a mim mesma sem saber, pobre criança, como fazer da maneira que a alma queria que eu fizesse, tudo questionado e efémero salvo aquilo que não logro tocar mas que me dá sentido, valor, aquilo que canta que sonha que emerge uma vez e outra, sempre, como o dia, como a noite, como a lua e o sol e esta respiração persistente que me confirma…
se houvesse fios mais visíveis, pistas esclarecedores a alumiar o caminho – dizem ser antigo, tanto como a memória perdida – poderia para mim, quem sabe, acender-se a luz interna das coisas e saberia melhor a fonte do choro e do riso, sombras transmutadas…
poderia, quem sabe, ler nos interstícios, nas brechas, nos vazios, alcançaria a vastidão imensa de quem sou e nela beberia a seiva do infinito pela qual me consumo…
Mariana Inverno in “Notas Diárias à Sombra dos Tempos”
se te falasse das pequenas coisas que me assombram ficarias absorta na contemplação de um mundo que quase nunca vês e talvez daí colhesses a tal seiva húmida de que todos precisamos para ver…
vejo fealdade, rostos-esgar a passar em high speed no ar poluído da metrópole, vejo os olhos vibrantemente azuis de um bebé que num canto da cafetaria me olhava como se conhecesse de há milénios – cristais líquidos a desencantar memórias armazenadas algures no espaço akáshico – vejo as flores de fim de verão a desencadear corolas e corolas mântricas sobre o meu ser esfomeado…
canta na casa por muito tempo a água de um duche persistente na tentativa de limpeza daquele ser atormentado, o agressor chora passado o clímax da luta, para que foi tudo aquilo, não levou a nada, não valeu a pena, não vale as mágoas e o vazio…
a mulher-menina que já não é menina mas ainda não mulher apesar do avançado cronológico, segue auto-hipnotizada, a fingir que é quem não é e perde o útero, às vezes as mamas, finalmente a vida toda sem ter a coragem de olhar para dentro…
gritam, matam-se e esfolem, brandem armas em nome do único deus, dos direitos do povo, sujos, delinquentes, habitados pelo ódio, incapazes, incapazes – fios manipulatórios respiram de alívio…lá se foi mais um ditador que já não serve…
e eu e a minha pele suave, eu e os meus olhos de luz que os sinto assim sempre, eu quem sou por onde vou se é que vou por algum lado, aonde e quando colherei o meu prana, já que o tempo corre agora como a própria luz e se evade de mim como amante perseguido…
concentra-te em mim se puderes, busco-te para além do que sabes de ti mesma, alcanço-te por vezes no elusivo timbre da tua nota cósmica, aí me fundo no eterno abraço…
Mariana Inverno in “Notas Diárias à Sombra dos Tempos”
Os traços subjacentes às personalidades narcisistas encontram nos tempos que correm terreno fértil para desenvolvimento. Tudo na cultura popular e dos media sugere um atraente potencial de sucesso para o narcisista, ou seja, aquele que tem um sentido grandioso de si mesmo e que se sente, por conseguinte, com direito a um melhor tratamento do que os outros por ser especial e único.
O narcisista começa por ser atractivo e sedutor para os outros. Ele está imbuído de auto-paixão e é uma lenda para si mesmo. No entanto, a prazo, essas características acabam por se reflectir negativamente nos relacionamentos pois ninguém pode alimentar nada de criativo a olhar mesmerizado para a própria imagem como se o mundo começasse e acabasse nela.
Há uma errónea tendência para confundir narcisismo com uma boa auto-estima. Enquanto esta representa o pilar seguro de uma personalidade estruturada e saudável, os traços narcisistas – os quais existem em diferentes graus nas pessoas podendo atingir níveis de desordem grave – porque exageradamente focados num só ser, acabam por atingir gravemente tudo e todos à sua volta, em especial o próprio.
Um narcisista é, de forma geral, arrogante, detem um ilimitado sentido de superioridade, sente que tudo lhe é devido e que não se submete ao que está abaixo do seu estatuto. Essencialmente egóico, centra as conversas à volta de si mesmo, vê-se e descreve-se como protagonista fabuloso das histórias fantasiadas que lhe acontecem e alimenta relações tendo em vista as suas próprias necessidades narcisistas. Não está particularmente interessado no outro (a não ser para os actos dos quais possa sair auto-glorificado), a bitola para todas as coisas passa pela resposta à pergunta que sempre se coloca: “Como é que isto/esta pessoa me faz sentir/me serve?”
Alimentar o ego desproporcionado, sentir-se bem, parecer ainda melhor e ouvir apenas aquilo que possa agradar aos traços doentios de uma personalidade espelhada no lago da popularidade, do ser-se especial e do sucesso constituem, em resumo, o leitmotiv deste tipo psicológico.
A exacerbação do materialismo (com todas as desordens que lhe são inerentes) tem dado origem, e nomeadamente neste milénio, a um acentuado crescimento destes traços entre os mais jovens. Na base deste fenómeno vive a ausência de valores espirituais, única força capaz de conter e transmutar a agressividade e a violência que por todo o mundo proliferam, bem como desmascarar a falácia da auto-promoção e da crença em se ser único e melhor do que o outro. A muito alimentada fantasia de que a pessoa é melhor do que realmente é – e certamente melhor do que os outros à sua volta – ignorando a realidade dos factos, está na origem de uma desordem individual e colectiva que começa a atingir níveis inquietantes. O facilitismo na educação – pais indulgentes que com ilimitada complacência buscam construir a auto-estima dos filhos com elogios exagerados e um sistema escolar que baixa o nível de exigência e inflaciona as notas para corresponder aos requisitos das estatísticas -, o irrealismo do crédito fácil de um sistema financeiro ganancioso e virtual, bem como a constante pressão a todos os níveis para nos tornarmos “mais belos, mais ricos, mais bem sucedidos” do que o outro, tem levado as gerações mais novas a um beco sem saída bem representado na superficialidade dos “reality shows” onde perece toda a dimensão espiritual do ser.
Em resumo, o tão cantado “amor a si próprio”, quando de inspiração narcisista, ameaça tornar-nos num mundo de egocêntricos, obsessivamente concentrados na nossa aparência, bem estar pessoal, poder material e apenas e só naquilo que possa servir os nossos interesses pessoais. O narcisista tem sempre grandes expectativas em relação à sua vida mas é irrealista nas correspondentes projecções de fama e estatuto. A mulher sai especialmente afectada deste fenómeno, pois as características próprias da sua sensibilidade não se coadunam com a pressão e as tensões a que o fenómeno narcisista dá lugar. Num artigo publicado no “Guardian”(2009), Madeleine Bunting refere que a identidade das mulheres foi sempre emoldurada pelos seus relacionamentos- como mães, filhas, esposas, amigas e irmãs e que a “relacionabilidade” é ainda central para o modo como as mulheres vivem as suas vidas. Contudo ela não se coaduna com esta cultura individualista, intensamente competitiva e narcisista. Isto dá-nos a pista para a cura de um mal que hoje ameaça atingir proporções epidémicas. Como em muitos outros campos, é ainda da mulher, geradora de vida e principal formadora do mundo de amanhã, que a consciência destes factos tem de emergir. E é principalmente dela que se espera a denúncia dos mesmos e as linhas orientadoras conducentes a um mundo mais são, onde se faça de novo sentir a música do espírito.
Mariana Inverno in “Notas Diárias à Sombra dos Tempos”
Vejo ter aumentado consideravelmente nos nossos tempos a onda de gente que crê (ou pretende fazer crer aos outros) que, através de visualizações e frases afirmativas do “lado positivo da vida” e de um febril optimismo a raiar o desequilíbrio, tudo andará pelo melhor e os problemas desaparecerão, como por encanto. Trata-se, provavelmente de impulsos compensatórios, máscaras de optimismo e de acção criativa às quais faltam naturalmente sustentáculo nas profundezas do ser. Daí a inconstância de objectivos, a mobilidade dos interesses e afectos e as súbitas mudanças de rota a que, oportunamente, se chama “viver o momento”. Santa inocência!
A palavra que não está assente na vivência pessoal ou que representa uma forçada interpretação da mesma, esboroa-se e não atinge verdadeiramente o coração do outro. Fica ao nível do cenário e todos os cenários acabam por cair.
Vivemos num tempo de depuração máxima e a palavra é um instrumento de alto poder. Por esse motivo, ela deve ter neste tempo excepcional um papel único de chamamento à realidade (holística) de cada um e de todos. Em vez de cenários róseos e do papaguear das conclusões de alegados grandes mestres, a palavra deve servir para o incitamento à coragem da auto-revelação, para a expressão da alma que frequentemente, a gritos, procura ser ouvida.
Os sinais de tal apelo são, como sempre foram, reconhecíveis nas inexplicáveis angústias que nos assaltam, nas sincronicidades da vida, nos padrões circunstanciais que “aterram” na nossa existência, na nossa saúde e portanto nas enfermidades do corpo, nos sonhos – plataforma interpretativa e complementar da experiência consciente -, nos passos atrás e nos difíceis e muitas vezes repetitivos bloqueios ao caminho planeado. São as chaves para o descobrimento pessoal, para os mistérios selados na nossa interioridade e para o enfrentamento dos quais não fomos devidamente preparados.
Acredito que partilhar, na medida possível, esta viagem, pressupõe humildade e entrega. Passar para palavras, sem efeitos especiais, o encontro consigo mesmo, poderá representar uma contribuição infinitamente mais duradoura para o avanço comum, do que mil frases, perfeitas e visionárias, que não saíram de nós.
Levantar os véus que se interpõem entre nós e o que verdadeiramente somos, é um grande desafio. Passar para palavras essa nossa experiência constitui um repto de proporções gigantescas, pois apenas em linha directa com a alma o podemos fazer.
Só a palavra que vem de dentro, funda e ressonante, exercício da Verdade, ecoa pelos espaços recônditos da Consciência.
Vejo ter aumentado consideravelmente nos nossos tempos a onda de gente que crê (ou pretende fazer crer aos outros) que, através de visualizações e frases afirmativas do “lado positivo da vida” e de um febril optimismo a raiar o desequilíbrio, tudo andará pelo melhor e os problemas desaparecerão, como por encanto. Trata-se, provavelmente de impulsos compensatórios, máscaras de optimismo e de acção criativa às quais faltam naturalmente sustentáculo nas profundezas do ser. Daí a inconstância de objectivos, a mobilidade dos interesses e afectos e as súbitas mudanças de rota a que, oportunamente, se chama “viver o momento”. Santa inocência!
A palavra que não está assente na vivência pessoal ou que representa uma forçada interpretação da mesma, esboroa-se e não atinge verdadeiramente o coração do outro. Fica ao nível do cenário e todos os cenários acabam por cair.
Vivemos num tempo de depuração máxima e a palavra é um instrumento de alto poder. Por esse motivo, ela deve ter neste tempo excepcional um papel único de chamamento à realidade (holística) de cada um e de todos. Em vez de cenários róseos e do papaguear das conclusões de alegados grandes mestres, a palavra deve servir para o incitamento à coragem da auto-revelação, para a expressão da alma que frequentemente, a gritos, procura ser ouvida.
Os sinais de tal apelo são, como sempre foram, reconhecíveis nas inexplicáveis angústias que nos assaltam, nas sincronicidades da vida, nos padrões circunstanciais que “aterram” na nossa existência, na nossa saúde e portanto nas enfermidades do corpo, nos sonhos – plataforma interpretativa e complementar da experiência consciente -, nos passos atrás e nos difíceis e muitas vezes repetitivos bloqueios ao caminho planeado. São as chaves para o descobrimento pessoal, para os mistérios selados na nossa interioridade e para o enfrentamento dos quais não fomos devidamente preparados.
Acredito que partilhar, na medida possível, esta viagem, pressupõe humildade e entrega. Passar para palavras, sem efeitos especiais, o encontro consigo mesmo, poderá representar uma contribuição infinitamente mais duradoura para o avanço comum, do que mil frases, perfeitas e visionárias, que não saíram de nós.
Levantar os véus que se interpõem entre nós e o que verdadeiramente somos, é um grande desafio. Passar para palavras essa nossa experiência constitui um repto de proporções gigantescas, pois apenas em linha directa com a alma o podemos fazer.
Só a palavra que vem de dentro, funda e ressonante, exercício da Verdade, ecoa pelos espaços recônditos da Consciência.
Mariana Inverno in “Notas Diárias à Sombra dos Tempos”

À REVELIA DA SIMPLICIDADE
“O nosso verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós próprios.” MARGUERITE YOURCENAR
Tenho estado todo o dia a pensar no que a Marguerite Yourcenar escreveu sobre o momento em que verdadeiramente nascemos. Corresponde, creio, a um corajoso estádio de lucidez sobre nós mesmos, a tal capacidade de olhar a miséria própria, sem disfarces, desculpas ou artificiosas explicações. Muito difícil, pois nada nos prepara para tal.
As pessoas, em geral, nada sabem sobre si mesmas, atrevo-me a dizer. Construíram um guião ao longo da vida, nutrido pelo que o meio ambiente lhes foi fornecendo como estímulo ou freio, e na dança e contradança da construção de um “Eu” viável, passando pela sobrevivência e por toda a mentira social, lá vai o ego saltitando de história em história, de causa em causa, em total ignorância do que realmente se passa nos bastidores (os próprios e os do entorno).
Confrange-me sempre o mau uso da palavra “simplicidade”. Eu sou um rapaz simples, eu gosto de frases simples, a mim chega-me uma vida simples, quero em toda a simplicidade ajudar os outros, representam em geral mecanismos de defesa face à própria auto-ignorância e dos caminhos do mundo em geral. Se formos simples, nada demais nos será exigido, podemos escudar-nos na nossa “simplicidade”. Mas a grande prova chega quando em vez da simplificação que apenas ilude, conseguimos encontrar a coragem e a pontinha de sabedoria indispensáveis para olhar de frente e a fundo o que reside por detrás dessa parede amarelinha e clara que é a fachada que mostramos ao mundo. À revelia dela vivem traumas, inseguranças, obsessões, carências, medos, sonhos desfeitos, dores de toda a ordem que nos habituámos a guardar num armário secreto longe da vista alheia, sobretudo longe da nossa.
Assim, tal como diz a Yourcenar, não me parece que tenhamos realmente aportado à verdadeira existência antes de sermos capazes de lançar sobre nós mesmos um olhar informado, prescrutante, laseriano, objectivo e tanto quanto possível isento na sua análise do que nos move lá das profundezas, que lixo deixámos para trás, que negações ou falsas verdades nos auto-impusemos para ir cumprindo o guião.
Ninguém é inocente! Estamos todos envolvidos numa trama mais ou menos complexa e as ”pessoas simples” e as “vidas simples” são parte da fábula que nos contamos. Para distrair da verdadeira problemática:o trabalho não feito. Esse facto é por sobremaneira evidente em quem se arvora em condutor/curador/reformador da humanidade, uma espécie em franco desenvolvimento na actualidade. A pessoa relativamente estruturada empresta equilíbrio aos outros, sem nada ter de apregoar ou defender. É que a sua própria vida reflecte indiscutivelmente esse facto, tenha ela o formato que tiver.
Ninguém é inocente, eu também o não sou. Passei muitas dores e atropeços para chegar a este ponto e, ao escrever estas palavras, mil imagens de falseamentos e ilusões me assaltam a mente e me doem no coração.
Escrevo à revelia do que não quero parecer que sou sem o ser. Apenas alguém que trabalha para tentar dar nascimento apropriado a si mesma.
“O nosso verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós próprios.” MARGUERITE YOURCENAR
Tenho estado todo o dia a pensar no que a Marguerite Yourcenar escreveu sobre o momento em que verdadeiramente nascemos. Corresponde, creio, a um corajoso estádio de lucidez sobre nós mesmos, a tal capacidade de olhar a miséria própria, sem disfarces, desculpas ou artificiosas explicações. Muito difícil, pois nada nos prepara para tal.
As pessoas, em geral, nada sabem sobre si mesmas, atrevo-me a dizer. Construíram um guião ao longo da vida, nutrido pelo que o meio ambiente lhes foi fornecendo como estímulo ou freio, e na dança e contradança da construção de um “Eu” viável, passando pela sobrevivência e por toda a mentira social, lá vai o ego saltitando de história em história, de causa em causa, em total ignorância do que realmente se passa nos bastidores (os próprios e os do entorno).
Confrange-me sempre o mau uso da palavra “simplicidade”. Eu sou um rapaz simples, eu gosto de frases simples, a mim chega-me uma vida simples, quero em toda a simplicidade ajudar os outros, representam em geral mecanismos de defesa face à própria auto-ignorância e dos caminhos do mundo em geral. Se formos simples, nada demais nos será exigido, podemos escudar-nos na nossa “simplicidade”. Mas a grande prova chega quando em vez da simplificação que apenas ilude, conseguimos encontrar a coragem e a pontinha de sabedoria indispensáveis para olhar de frente e a fundo o que reside por detrás dessa parede amarelinha e clara que é a fachada que mostramos ao mundo. À revelia dela vivem traumas, inseguranças, obsessões, carências, medos, sonhos desfeitos, dores de toda a ordem que nos habituámos a guardar num armário secreto longe da vista alheia, sobretudo longe da nossa.
Assim, tal como diz a Yourcenar, não me parece que tenhamos realmente aportado à verdadeira existência antes de sermos capazes de lançar sobre nós mesmos um olhar informado, prescrutante, laseriano, objectivo e tanto quanto possível isento na sua análise do que nos move lá das profundezas, que lixo deixámos para trás, que negações ou falsas verdades nos auto-impusemos para ir cumprindo o guião.
Ninguém é inocente! Estamos todos envolvidos numa trama mais ou menos complexa e as ”pessoas simples” e as “vidas simples” são parte da fábula que nos contamos. Para distrair da verdadeira problemática:o trabalho não feito. Esse facto é por sobremaneira evidente em quem se arvora em condutor/curador/reformador da humanidade, uma espécie em franco desenvolvimento na actualidade. A pessoa relativamente estruturada empresta equilíbrio aos outros, sem nada ter de apregoar ou defender. É que a sua própria vida reflecte indiscutivelmente esse facto, tenha ela o formato que tiver.
Ninguém é inocente, eu também o não sou. Passei muitas dores e atropeços para chegar a este ponto e, ao escrever estas palavras, mil imagens de falseamentos e ilusões me assaltam a mente e me doem no coração.
Escrevo à revelia do que não quero parecer que sou sem o ser. Apenas alguém que trabalha para tentar dar nascimento apropriado a si mesma.
Mariana Inverno in “Notas Diárias à Sombra dos Tempos”
Calar as emoções e seguir a nossa vida da forma habitual sem as expressar é, com frequência, considerado politicamente correcto. Próprio dos educados, dos evoluídos mesmo.
Considera-se correcto não levantar a voz, não agitar os ares, não causar alterações abruptas numa ordem que se quer sem grandes ondas ou inconveniências para merecer o epíteto de civilizada!
Assim, as emoções e as dores, fechadas à chave nos recônditos do ser, fermentam perigosamente no veneno da sua não expressão e transformam-se em não detectáveis corpos de anti-vida os quais, cedo ou tarde, nos hão-de consumir em silêncio, de dentro para fora, e levar o mais precioso dos nossos bens: a saúde e mesmo a Vida.
Não sou politicamente correcta e sinto a Vida em mim com uma intensidade pouco habitual. Acima de tudo, preciso de a expressar, como indispensável me é o ar que respiro.
Ao contrário do que muito boa e “qualificada” gente proclama, acredito ser de toda a vantagem para o ser verbalizar a panóplia de emoções que o assaltam, desde a alegria à dor, do desapontamento ao medo e mesmo a própria zanga. Isto porque é importante tentar reconhecer o que nos habita, sem coloridos hiperbólicos ou a odiosa máscara de “se ser bom e estar acima do lixo emocional próprio dos fracos”, encará-lo e dar-lhe voz no momento adequado. Desde que não nos descontrolemos ou descarreguemos as nossas emoções de forma inadvertida sobre inocentes terceiros que possam estar no nosso caminho. Desde que cuidemos a linguagem que utilizamos, sem recurso a asneiras ou termos de mau gosto, os quais podem rapidamente acarretar o descontrole.
Dar expressão ao que nos vai dentro é próprio do ser humano e liberta-nos. Como, de dentro de um quarto abafado, abrir uma janela de par em par para o ar fresco da manhã.
A verdade é sempre algo relativo, pois cada um detém a sua. A mim cabe-me buscar e dar expressão à minha, apresentando-a em toda a sua inteireza perante o outro.
Ser assim leva-nos muitos “amigos”. Elimina os politicamente correctos, para começar, os dissimulados, os falsos, os oportunistas, os teatreiros e os que se relacionaram com uma projecção mas nunca com o nosso verdadeiro ser. Cabe-nos muitas vezes a culpa de isso ter acontecido, pois o tango, em especial o da vida, é sempre dançado a dois.
Sentia vontade de chorar e chorou mesmo, mas não ficou aliviada.
Buscava a palavra essencial, aquela que emergisse depois de tudo se aquietar, após limpar o lixo, calar a estereofonia, sentir-se só, em casa, finalmente nos braços do Silêncio. A palavra capaz de sobreviver à dor finíssima e imperceptível que lhe atravessava o coração como uma lâmina estreita e longa, fria como um iceberg.
Lá fora, nos jardins, cães ladravam furiosamente, numa reclamação magna e sem sentido. Sem sentido parecia aliás tudo, hoje em dia, pois em vez da aguardada palavra de ouro, aflorava apenas um sentido de desolação, muito pouco que lhe restasse em que acreditar.
Ser-lhe-ia fácil contar-se uma outra história se fosse menos rigorosa, mais dada ao auto-engano. Mas se Blanca sentia assim as coisas, as historietas de outrora – as boas, as que têm final feliz, aquelas em que as coisas se resolvem e tudo acaba em luz e em elevação – tinham deixado de fazer sentido. Só podia ajuizar pela sua própria vida, pela límpida intenção que lhe crivara a ponto cruz a alma de sonhos e esboços de voos e o contraste dos desfechos, uns após outros. Os dos sonhos mais íntimos e preciosos, o desaparecimento da crença nos outros que era (quase) o fim da confiança na vida.
Quase, tudo tinha sido sempre quase, mas… não, finalmente. E era isso o que mais lhe custava, pois a dimensão da sua interioridade extravasava-a, num auto-sufoco assassino da vida que lhe restava.
Pensava Blanca em desistir. Podia ficar ou partir, mas o cheiro a desistência empestava-lhe os dias e tisnava de lonjura e vazio os seus grandes olhos que, tudo vendo, já nada viam como antes. Ela sabia que o encanto se perdera, já não acreditava mais que alguém sentisse por ela alguma coisa do que realmente conta, pois também ela deixara de sentir fosse o que fosse. Achava agora que não passara de um ser utilitário para os outros, às vezes uma espécie de milagreira, e que muita ficção tinha corrido à conta disso. Mas mais nada.
Quando chorava – e fazia-o muitas vezes – não chorava por ninguém nem por nada. Descomprimia um pouco e ficava-se depois no eco de alguma coisa que tinha estado para ser mas não fora, alguma coisa já sem rosto, que dela havia descolado num voo sem retorno.
Até Mahler, cuja música sempre a havia inspirado, lhe parecia excessivo agora.
Não faz sentido tanta dor, não é preciso viver se o que nos rodeia é a anti-vida – ecos, ecos e só ecos das mentiras que tomámos como grandes verdades.
Decidiu ir-se. De uma forma muito feminina. Tomou-os muito rapidamente e esgueirou-se como uma nota final, em fuga.
//////
Eu soube da história de Blanca porque acompanhei amigos comuns ao funeral. E o que neles detectei parece desmentir em absoluto o que levou aquela doce mulher a antecipar o fim da sua residência na Terra. Ou talvez seja a minha imaginação criadora a tentar dourar a pílula.
O facto é que se pudesse, mesmo sem a conhecer, teria a tempo abraçado Blanca com toda a minha alma e amado com todas as minhas forças, para que os seus grandes olhos rasos de água voltassem a sorrir.
Sendo as coisas como são, deixo aqui o meu testemunho para que nele se pondere.
MARIANA INVERNO, Notas Diárias à Sombra dos Tempos

Desde sempre que a voz humana constituiu para mim uma referência valiosa sobre o outro. Não que pensasse nisso ou decidisse à partida que tinha de a avaliar para saber quem estava à minha frente. Aconteceu sempre, de forma espontânea.
Sem que o espere, a voz do outro abre-me o coração, irrita-me, devassa-me ou reverencia-me, conquista-me, indispõe-me, cansa-me, tranquiliza-me, arranha-me o ouvido, acaricia-me ou agride-me. Num segundo, apresenta-se-me no outro, através da voz, o aliado, o inimigo, o cúmplice, o ser doente ou mal amado, o agressor, o fraco, o perdido, o invejoso, o falso. Como me pode tocar a inconfundível chispa do amor, da criatividade, da força, do estímulo, da autoridade e da ternura em disponibilidade. Por mais que, por vezes, as palavras emitidas pareçam dizer algo de diferente.
Ao tomar consciência destes factos, passei a reflectir sobre a voz, esse primordial instrumento de comunicação, sine qua non, resultado a nível físico de um trabalho conjunto dos sistemas respiratório, digestivo e nervoso, dos músculos e até da arquitectura do esqueleto. A voz é som, vibra no ar, de uns para os outros, montada na sua intensidade, inflexão e altura. Na forma como as palavras são articuladas.
Sinto, porém, que há muito mais por revelar. Como em tantas outras áreas, acho que também no caso da voz, misteriosos véus de olvido barram a nossa memória no que se refere ao seu grande poder – intimamente associado ao que cada um é, em essência – e à sua capacidade interpretativa e de comunicar o estádio em que, momento a momento, nos encontramos na manifestação.
Cada voz desdobra-se em mil vozes, múltiplas e opcionais, que aguardam ser redescobertas e reintegradas na nossa consciência, como valiosos indicadores acerca de quem nos rodeia.
De forma paradoxal, destaca-se de entre todas a voz do silêncio, uma das mais poderosas, pela sua capacidade de por vezes curar o próprio, punir o outro, consentir na injustiça por omissão e sobrepor-se à compadecida e cálida voz do coração.
Assim, amigos, nem sempre o silêncio é de oiro!
Mariana Inverno in Notas diárias à sombra dos tempos
Com quem se relaciona o outro, em mim? Com a minha aparência física, com as palavras que digo?
Com as construções que vou deixando pelo caminho, com a minha conta bancária?
Com o que sou ou com o que pareço ser? Com o meu passado, com o meu futuro?
Em que precários e transitórios pilares assenta a dança entre os seres, que fantasiosas invenções assistem os grandes envolvimentos, uniões, amores, acordos, amizades e o seus opostos, toda a trama a que chamamos vida?
Em que é que devo acreditar? No abraço ou na rejeição, os papéis confundem-se, há com frequência trágicas nuances de ilusão naquilo em que acreditamos, prosseguimos, no empenho que colocamos no que nos parece acima, para além de, mais importante que tudo.
Chega depois a interrogação fulcral, num crescendo, por vezes ardente ferro em brasa, latejante e febril lá nos fundos da gente. Quem sou eu? O que sou eu? Para quê, eu? Por quê, eu? Eu não sou o medo e eu não sou a cólera, não sou nem a filha de, nem a mãe de, não sou a esposa, nem a chefe, não o ser que entra e sai de cena, não a ganhadora, não aquela que perde…
O nível da minha verdadeira existência alinha-se com o corpo de um sopro, uma ampla liberdade inexpressável, doçura antiquíssima, infinita como um golpe de asa branca. Algo que vive no alinhamento cósmico, alguma coisa eterna, inquebrável, um canto sem voz mas gloriosamente escutado no dentro de todas as coisas vivas.
Quanto mais me posso aproximar, no verbo, daquilo que sinto que sou? E se o sou, a que nível é que esse ser acontece, como e quando se expressa, quem ou o que é que despoleta a sua manifestação?
Ponho e tiro máscaras. As máscaras funcionam para o consenso, não desafiam em demasiado a norma. Escudos, barreiras, diques protectores daquilo que eu não sei dizer, aquilo que respira e pulsa como um coração de cristal, insustentável na aparência porém sobreposto ao espaço e ao tempo, eu sinto. As máscaras cobrem, abafam o coração cristalino, aquele que se não pode e se não sabe expôr.
Eu queria, eu queria ser só o que sou para não mais aparentar ser o que não sou. Mas os sóis e as luas do infinito cosmos continuam a cruzar-se nas suas danças elípticas, avançam hipóteses, contrariam planos. Tudo com certeza pleno de significado e de intento. Eu, contudo, sou apenas uma consciência em expansão, pequena glosa de um todo que não abarco, inábil transportadora de indelével memória, força, registo.
Desço agora ao roseiral para ver se me sinto, se me agarro, antes que a noite baixe e já não possa mirar as rosas…

Mariana Inverno
in “Notas diárias à sombra dos tempos”
imagem
Fico sempre embaraçada perante a impossibilidade da maioria das pessoas serem capazes de sustentar um diálogo franco e construtivo entre elas, diálogo para o qual concorrem diferentes pontos de vista, por vezes tantos como os interlocutores em jogo.
Parece que muito pouca gente gosta de ver as suas crenças/pontos de vista minimamente questionadas e prefere uma falsa harmonia à efervescente ebulição do avanço conjunto, assente na contribuição autêntica de cada um. Acho que isto se fica a dever à fraca estrutura em que os seres assentam as suas vidas, sem um trabalho de fundo. A “verdade” é algo da autoria de outrem. colado à pressa na camada superficial do ser, entretanto rigidificado numa atitude defensiva. O recurso a atitudes arrogantes, quando não ao insulto, é a consequência habitual.
Pergunto-me. qual é o interesse de viver num mundo de “Améns” (por força, falsos, na sua maioria), será que não são por demais evidentes os efeitos nefastos da paz podre?
As patéticas audiências de gente a acenar que sim, que sim, que sim… que sim, o quê Por quê? Assente em quê? Para quê?
As patéticas audiências a não dizerem nada, porque nada têm para dizer, ou se têm, não dizem, porque pode não ser politicamente correcto e arranjam-se sarilhos.
As patéticas audiências de seres armados até aos dentes para defenderem o que trazem colado à pele da sua (in)segurança pessoal (carreira, estatuto, protagonismo de algum tipo).
Algo parafraseando o poeta, dai-me rosas, dai-me rosas, e o fluir da água, e o ar livre em movimento.
Dai-me a vossa voz, a que corre nos átomos do corpo inquieto, perplexo, atento aos indecifráveis mistérios, a que jorra da mente empenhada e do coração tenro…
MARIANA INVERNO, in “Notas Diárias à Sombra dos Tempos”