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Poesia

Terra Madre


ERMANNO OLMI Itália // 2009 //78’

Terra Madre representa a globalização positiva, dá voz a quem não se resigna ao modelo homologante e desumano da indústria. As comunidades de Terra Madre reúnem-se para proclamar que a produção de comida deve manter uma relação de harmonia com o ambiente; de maneira a afirmarem a dignidade cultural e científica das práticas tradicionais; para voltarem o seus próprios países com a energia positiva proveniente do sentiremse parte de uma verdadeira “comunidade de destino”.

Terra Madre termina com um poema lírico sobre um lavrador do vale do Adige que planeia e constrói uma horta, tudo sozinho, estação após estação. Um hino à natureza e às mãos do Homem, contado com um carinho e com um sentido tão aguçado dos tempos e das matérias, que quase nos faz sentir o perfume da terra e dos frutos. Uma maravilha.

Intimidade

No coração da mina mais secreta,

No interior do fruto mais distante,

Na vibração da nota mais discreta,

No búzio mais convolto e ressoante,


Na camada mais densa da pintura,

Na veia que no corpo mais nos sonde,

Na palavra que diga mais brandura,

Na raiz que mais desce, mais esconde,


No silêncio mais fundo desta pausa,

Em que a vida se fez perenidade,

Procuro a tua mão, decifro a causa

De querer e não crer, final, intimidade.


José Saramago

POR DETRÁS DE MIM MESMA

POR DETRÁS DE MIM MESMA


reencontronointerior

Não sei o que me assalta, hoje em dia.
Estou contente, logo triste.
A minha alma anseia pela graça e tudo reviro na ânsia de a encontrar. É, contudo, no estar quieta que ela melhor percorre o interior das minhas células, aliviando-me de todos os pesos, mesmo do de estar viva.

Fico ensimesmada a pensar no motivo de tantos altos e baixos, eu que fui sempre uma criatura na aparência estável e equilibrada. Gosto e deleito-me em todas as coisas que em geral encantam o género humano: flores, crianças, ternura, afectos, boas comidas, fragrâncias, beleza, sonho, canto, música…
Mas há um sítio-estádio onde nada disso parece contar muito. Difícil descrevê-lo, complicado alcançá-lo…É como os meus olhos a olharem para dentro de si mesmos, é como se por detrás de mim estivesse eu mesma e para o nosso diálogo não tivesse sido achada por ora a palavra justa.

Portais a abrirem-se, certezas totais moldáveis como um plasma, choro, dádiva, dúvida sistemática recorrente como a estação fria em cada ano, solidão, união, ausência…
Triste ou contente, resisto mais.

De algum modo, sou mais vezes e por mais tempo a que está por detrás de mim mesma.

Amparo-me nesse facto.

Mariana Inverno

Mulher Ardente Terra

terraembalou










não há som nem voz ou corpo que contenha

mais amor e luz que a terra ardente

guarda os meus sonhos sustenta a mulher

perene e maga flor delicada

rosa secreta luz caminhante

pelo incerto fio da vida


guardo choros sou um leito massacrado

de sons trocados e vácuas regras

mas sou também aquela que ainda canta

perplexa

na água chorosa das manhãs sofridas


sou versos estivais

sou colo e embalo

guardo as entranhas e nelas o secreto

o ancestral o tenro o fértil suco

da vida a respirar


sou a inesperada flor que se soltou

no pântano escurecido dos enganos

sou perfume e onda doce lagoa

espelho secreto da magicação lunar


sou peito morno esboço de sonhos

que te adormece na noite dos terrores


escuta os sussurros a relembrar

o dia antigo do abraço e da magia

esvoaça borboleta acolhe-me

é terra ó mãe sem par resguarda-me

nesse teu ventre na mornidão

geradora dos louros frutos


abre-te coração abre a portada

vislumbra a glória eterna

de ser mulher descalça e desnudada

portadora de tesouros

como o que a flor de lótus

esconde no seu seio


varre-me incendeia-me o corpo  ó terra

abre-me à noite sem fim dos teus mistérios

pois

não há voz nem gestou ou corpo que contenha

mais amor e luz que a terra ardente



Mariana Inverno