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Textos

A VOZ



a-voz


Desde sempre que a voz humana constituiu para mim uma referência valiosa sobre o outro. Não que pensasse nisso ou decidisse à partida que tinha de a avaliar para saber quem estava à minha frente. Aconteceu sempre, de forma espontânea.




Sem que o espere, a voz do outro abre-me o coração, irrita-me, devassa-me ou reverencia-me, conquista-me, indispõe-me, cansa-me, tranquiliza-me, arranha-me o ouvido, acaricia-me ou agride-me. Num segundo, apresenta-se-me no outro, através da voz, o aliado, o inimigo, o cúmplice, o ser doente ou mal amado, o agressor, o fraco, o perdido, o invejoso, o falso. Como me pode tocar a inconfundível  chispa do amor, da criatividade, da força, do estímulo, da autoridade e da ternura em disponibilidade. Por mais que, por vezes, as palavras emitidas pareçam dizer algo de diferente.

Ao tomar consciência destes factos, passei a reflectir sobre a voz, esse primordial instrumento de comunicação, sine qua non, resultado a nível físico de um trabalho conjunto dos sistemas respiratório, digestivo e nervoso, dos músculos e até da arquitectura do esqueleto. A voz é som, vibra no ar, de uns para os outros,  montada na sua intensidade, inflexão e altura. Na forma como as palavras são articuladas.
Sinto, porém, que há muito mais por revelar. Como em tantas outras áreas, acho que também no caso da voz, misteriosos véus de olvido barram a nossa memória no que se refere ao seu grande poder – intimamente associado ao que cada um é, em essência – e à sua capacidade interpretativa e de comunicar o estádio em que, momento a momento, nos encontramos na manifestação.

Cada voz desdobra-se em mil vozes, múltiplas e opcionais, que aguardam ser redescobertas e reintegradas na nossa consciência, como valiosos indicadores acerca de quem nos rodeia.
De forma paradoxal, destaca-se de entre todas a voz do silêncio, uma das mais poderosas, pela sua capacidade de por vezes curar o próprio, punir o outro, consentir na injustiça por omissão e sobrepor-se à compadecida e cálida voz do coração.

Assim, amigos, nem sempre o silêncio é de oiro!


Mariana Inverno in Notas diárias à sombra dos tempos

Viagem Interior

nascimento

 

 

Parto para onde me leva a energia curvilínea,

monto no sopro do vento,

destacada do que no antes me condicionou.

 

Para onde voas, coração,

quando a interioridade te chama,

ansiosa das sendas novas que me aproximarão de mim mesma…

Pulsas na luz, no magma,

na água azul de um sonho antigo,

reminiscente de todas as origens,

recolhes-te na energia serena do recentramento e navegas, coração, f

azes-te ao cosmos na luz reconfortante do sentir. (…)

 

Mariana Inverno

 

Imagem: Felippa Lobato – Nascimento